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6 de abril de 2026

O Avesso das Coisas


 



Um dia me disseram que o mel era amargo,

que o rio não corria, só fingia o caminho (...)

sem saber, me entregaram um mapa bem largo

e eu aprendi a sair do meu próprio labirinho.

 

Me disseram que o fogo não aquecia ninguém,

que a estrela era falsa pintada no teto

e nessa mentira havia um presente também:

aprendi a buscar a luz no lugar mais discreto.

 

Às vezes a verdade vem disfarçada de erro,

um tropeço que abre a porta que eu não via

o que parecia muro era só vidro mero,

e o que chamavam de fim era só a saída.

 

Me disseram que o pão não sustentava a fome,

que a sombra era mentira que o sol inventou

e cada ilusão desfeita que eles me impõem

foi um gradeado a menos que o tempo quebrou.

 

Hoje sei que o engano pode ser libertador,

que cada véu rasgado é uma janela que nasce

quem me quis preso me deu, sem querer, a melhor

das ferramentas: a dúvida que tudo desfaz e refaz.

 

 

12 de março de 2026

Impérios da Razão e o Fogo da Paixão





        Nas auroras ancestrais, o homem ergueu-se da terra nua, forjado no fogo da guerra e no suor do labor, guiado pela razão afiada como lâmina de ferro. Seus braços, calejados pela enxada e pela espada, traçaram os primeiros impérios: muralhas de pedra que desafiavam os céus; canais que domavam rios selvagens; cidades que pulsavam com o ritmo da sobrevivência. Com olhos frios e mente calculista, ele conquistou desertos, ergueu pirâmides sob o sol impiedoso do Nilo, onde os faraós teciam destinos eternos em linhagens de poder absoluto. Roma nasceu assim, de legiões marchando em fileiras perfeitas, de césares que mediam o mundo em mapas de conquista, pavimentando estradas que uniam continentes sob o jugo da lei racional.

        Mas a paixão, esse vendaval sutil da alma, sussurrava nos ventos da noite, recordando que o coração humano não se contenta com torres inabaláveis. Adão, pai primordial, provou o fruto proibido não por fraqueza, mas pelo fogo da curiosidade partilhada; e o paraíso rachou-se em lições de mortalidade. Abraão, patriarca das areias, viu em Sara não a ruína, mas o milagre da promessa divina, gerando nações de um ventre estéril. Sansão, titã de força hercúlea, encontrou em Dalila o espelho de sua própria vulnerabilidade; e, nas tranças cortadas, o colapso de um templo que ecoou a fragilidade de todo herói. Davi, rei poeta, dançou perante a arca com Batseba em seus sonhos; e, de sua paixão, nasceram salmos que ainda guiam multidões, ainda que o sangue de Urias manchasse o trono.

        Salomão, sábio entre os sábios, construiu o templo de ouro com a razão de mil provérbios; mas as setecentas rainhas e trezentas concubinas teciam, em seu palácio, os fios da discórdia, dissipando a glória em ventos de idolatria. Alexandre, o Grande, varreu o Oriente com falanges invencíveis, unindo gregos e persas num sonho helénico; até que Roxana, a princesa bárbara, acendesse em seu peito o desejo que o fez pausar exércitos, morrendo jovem em Babilónia, com impérios partidos como vidro. Em Troia, o nobre Príamo viu seu reino em chamas por Helena, cuja beleza não era veneno, mas o espelho da guerra que os homens já carregavam no sangue. Lampião, cangaceiro das caatingas, rei do sertão com sua espingarda e sua lei, sucumbiu ao amor por Maria Bonita; e, juntos, forjaram lendas de rebeldia, caindo não em derrota, mas na eternidade de um abraço final.

        Clóvis, conquistador franco, unificou gauleses sob a cruz; mas sua rainha Clotilde dobrou-o à fé cristã, transformando impérios pagãos em reinos de luz. Napoleão, águia corsa, redesenhou a Europa com códigos e canhões; até que Josefina envolvesse seu coração em sedas que o fizeram chorar no divórcio, ecoando nas campanhas da Rússia como um presságio de queda. Mesmo em eras modernas, Rockefeller ergueu torres de petróleo com a frieza do cálculo; mas o amor por suas herdeiras tecia, nas veias dos impérios, o calor humano que os humanizava. A paixão não corrompe; ela dissolve as muralhas da razão pura, revelando que o homem, em sua essência, é ponte entre o titã e o sonhador, entre o império eterno e o instante fugaz.

        Assim, os reinos caem não por traição feminina, mas porque a alma anseia o todo: razão para erguer, paixão para sentir. Nos escombros de Babel e nas cinzas de Cartago, renascem novas catedrais, onde o homem, renovo da terra, equilibra espada e lira, conquistando não só o mundo, mas a si mesmo.




Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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