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3 de fevereiro de 2026

DO VAZIO QUE HABITA A CERTEZA


 


Navego em mares onde não há farol,

sem bússola celeste a me guiar o rumo,

e neste pélagο de névoa e de presumo,

construo, grão por grão, meu próprio arrebol.

Negaram-me os altares, mas não o sol

que nasce indiferente ao nosso cumo;

e se da fé renuncio ao doce sumo,

resta-me o peso insone do controle.

Porque é fardo também não ter certeza

do abraço que nos salva além da morte,

e erguer, sozinho, toda a fortaleza

da ética sem véu, da humana sorte.

Invejo, sim, a transcendente empresa

mas habito o real: meu céu e norte.

 

Há noites em que o cosmos me interroga

com seus bilhões de sóis indiferentes,

e sinto que as respostas mais prudentes

são as que a razão sóbria não derroga.

Mas algo em mim, secreto, ainda prorrogα

a solidão dos seres conscientes;

busco nas sombras vestígios patentes

de um sentido que a lógica não aloga.

Viver sem crer não é viver sem fome

do inexplicável, do que nos transcende

é aceitar que o mistério não se dome,

que nenhum dogma o abismo nos defende.

E nesse desamparo, acho meu nome:

humano que questiona e não se rende.

 

Abri mão das preces, não da reverência;

do templo, mas não do recolhimento.

Há liturgias no puro pensamento,

há graça mesmo em plena contingência.

Troquei a providência pela ciência,

o eterno pelo efêmero tormento,

e encontro neste lúcido momento

não paz talvez, mas íntegra existência.

Pois fé não é somente a que se ajoelha

diante do altar ou da promessa vã;

é crer também que a vida, embora velha

de dor e perda, ainda nos engana

com lampejos de amor e nisso se assemelha

ao sonho que os devotos chamam de mana.

 

Entre o vazio e o excesso de sentido,

habito a margem, o lugar incerto

onde o sagrado e o profano, perto,

dialogam sem que um seja desmentido.

Não creio, mas não julgo o convertido

que encontra no divino o campo aberto;

respeito o mistério que não decifro,

honro o silêncio, mesmo incompreendido.

Porque viver sem crer é também crer

na dignidade do que somos, nus,

sem outro amparo além do próprio ser.

É acender, na escuridão, a luz

da consciência e com ela aprender

que somos, ao final, nosso Jesus.




20 de junho de 2025

O Coração das Palavras: Uma Confissão Atemporal




        A minha poesia não é um ornamento de palavras nem um exercício de vaidade. Ela é um espelho trincado, onde cada verso revela as fissuras da alma. Fala de amor, de vida, de tristeza e de alegria. Chora por dentro, como quem sangra em silêncio e imprime em cada estrofe a razão de eu ser quem sou; não por escolha, mas por necessidade. Escrevo como quem respira, como quem clama para não desaparecer. Quem sou eu, afinal, senão um amontoado de lembranças, de sonhos interrompidos, de encontros que viraram saudade?

        Não escrevo para agradar. Escrevo porque preciso sobreviver à minha própria história. A poesia fala de mim sem maquiagem, sem filtros, sem temor de julgamento. Já mergulhei nos abismos da fé onde a esperança se mistura ao desespero e já escalei os alpes da dúvida, onde o ar é rarefeito e a verdade se esconde entre as nuvens. Como continuar crendo em um mundo que, tantas vezes, nos cospe de volta ao chão? Como deixar de crer, se dentro de nós ainda pulsa um último fio de luz?

        Sou homem de dores; não por escolha, mas por herança. Rejeições me moldaram, perdas me esculpiram, memórias me tatuaram. Em cada ruga da minha pele mora uma história, em cada silêncio meu, uma multidão de gritos não ouvidos. Eu sei exatamente o dia, a hora e o ano em que cheguei neste mundo. Mas não sei o instante da minha partida. E quando esse dia chegar, o que restará de mim? Quem guardará minhas palavras? Quem as relerá e sentirá que eu, de algum modo, ainda estou aqui?

        Será que a vida é só isso: uma sucessão de dias esquecíveis, onde deixamos rastros que o tempo se apressa em apagar? Será que existe um legado que não se perca na poeira da modernidade, nas nuvens digitais ou nas cinzas do esquecimento? O que significa realmente ser lembrado? E se a lembrança for apenas um eco; uma ilusão reconfortante de permanência?

        Não quero ser uma estátua, nem uma efígie em livro de escola. Quero que minhas palavras respirem. Quero que entrem nas veias de quem lê e provoquem algo revolta, ternura, dúvida, amor. Quero que sirvam de abrigo para quem está prestes a desistir, ou de bússola para quem se perdeu no labirinto da existência. Quem disse que palavras não têm carne? Que poesia não tem sangue?

        Se a tecnologia ou o mundo espiritual permitirem, que eu continue vivendo nem que seja apenas nos olhos de quem ousa sonhar. Porque a verdadeira eternidade não se mede em tempo, mas em impacto. O que você está deixando de si mesmo? Quem você é quando ninguém está olhando? E quando tudo acabar, o que de você ainda vai ecoar no mundo?

        A vida é breve, mas a alma quando tocada por palavras sinceras pode se alongar além das fronteiras do esquecimento. E talvez, só talvez, meu maior legado seja este: ter vivido intensamente cada dor, cada amor, cada verso. Porque ser humano é isto sentir tudo ao extremo, cair e levantar, escrever e sangrar... e ainda assim, sorrir para a eternidade como quem sabe que, mesmo esquecido pelo mundo, foi verdadeiro consigo mesmo.




Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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