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4 de janeiro de 2026

Ensaio Poético, ou Abraços que Tecem a Alma.


        Abraços que acolhem o peito e fazem a alma repousar, como o manto suave de uma madrugada serena, envolvendo o corpo exausto em um casulo de paz esquecida. Abraços cordiais, formais e sem afeto, trocados em salões frios de convenções sociais, onde os braços se cruzam por dever, mas o coração permanece intocado, um ritual vazio de calor humano. Abraços de saudade e de nostalgia, aqueles que apertam o ar entre os corpos ausentes, evocando cheiros de infâncias perdidas e risos ecoados no tempo, como fantasmas que se entrelaçam na penumbra da memória.

        Abraços de despedida, breves e cortantes como lâminas de adeus, que marcam a pele com a promessa de um vazio eterno, deixando o peito latejante de promessas não cumpridas. Abraços apaixonados e acalorados, fogos vorazes que consomem distâncias, fundindo peles suadas em um só pulsar, onde o desejo grita mais alto que qualquer palavra sussurrada. Abraços por abraçar, mecânicos e despretensiosos, dados ao estranho na rua ou ao amigo de passagem, um gesto banal que, por um instante, humaniza o caos da multidão.

    Abraços de família, raízes entrelaçadas em um emaranhado de braços e histórias compartilhadas, onde o sangue pulsa no mesmo ritmo, curando feridas invisíveis com a força de laços inquebráveis. Abraços de pai com filha, fortes e protetores como muralhas antigas, que carregam o peso de silêncios compreendidos, um colo que ensina a voar sem medo de cair. Abraços que não precisam de palavras para se eternizar, mudos e profundos, gravados na eternidade do toque, onde o olhar diz tudo e o corpo completa o verso inacabado.

      Abraços de quem ama e manifesta seus sentimentos com atitudes, não com flores murchas ou juras vazias, mas com o aperto firme que diz "estou aqui" em meio às tormentas da vida. Abraços de medo, apertados e trêmulos nas noites de pavor, onde dois corpos se unem contra o abismo, tecendo coragem a partir do tremor compartilhado. Abraços que fazem a cabeça reclinar nobre o peito com ato de amor, um ninho sagrado onde o mundo lá fora se dissolve, e resta apenas o ritmo compassado de dois corações em sintonia divina.

        Abraços de encontro, explosões de reencontro após anos de separação, que dissolvem o tempo em um só instante, reavivando chamas adormecidas com o mero roçar de peles. Abraços nunca mais vão se repetir, únicos e irrepetíveis, como estrelas cadentes que cruzam o céu uma única vez, deixando trilhas de luz na escuridão da alma. Abraços de Judas, traiçoeiros e doces na superfície, que beijam a face enquanto afiam a lâmina nas costas, um veneno disfarçado de afeto que corrói a confiança de dentro para fora.

        Abraços que fazem do silêncio uma eternidade de acolhimento e paz, onde o não dito se torna hino, e o vazio entre os braços se enche de compreensão infinita. Abraços de gratidão, leves como brisa de outono, dados ao destino por mais um dia de luz, um obrigado encarnado no gesto simples. Abraços de cura, balsâmicos e demorados, que cicatrizam feridas antigas com o calor da presença, transformando dor em lição sussurrada pelo toque.

        Abraços de criança com o mundo, inocentes e exploradores, que abraçam árvores, ventos e desconhecidos com a fome insaciável de descoberta, sem medo de rejeição. Abraços de luto, pesados e chorosos, que carregam o peso do ausente, unindo os vivos em uma rede de solidariedade tecida pela dor comum. Abraços eróticos, lentos e provocantes, que dançam na fronteira do prazer, acordando sentidos adormecidos com promessas de êxtase velado.

        Abraços de perdão, amplos e libertadores, que desfazem nós de rancor com a força de um reencontro purificado, lavando culpas no rio do afeto renovado. Abraços de vitória compartilhada, eufóricos e saltitantes, que erguem os corpos no ar como troféus vivos, celebrando conquistas com o clangor de risos entrelaçados. Abraços de solidão fingida, dados ao espelho ou ao travesseiro, ilusões que mascaram o vazio, mas alimentam a esperança de um toque real por vir.

        Abraços culturais, rituais de nações e povos, como os urso dos russos ou os efusivos dos latinos, pontes entre mundos que dissolvem fronteiras em um só pulsar universal. Abraços de pets fiéis, peludos e incondicionais, que curam o dia ruim com lambidas e ronrons, lembrando que o amor puro não precisa de palavras humanas. Abraços cósmicos, imaginados com o universo, onde o peito se abre para estrelas distantes, sentindo o abraço infinito da criação em noites de insônia contemplativa.

        Abraços que salvam vidas, dados no limiar do desespero, puxando a alma de volta do abismo com a âncora do calor alheio. Abraços efêmeros, como os de um metrô lotado, anônimos e passageiros, que por frações de segundo unem estranhos em uma sinfonia coletiva de proximidade. Abraços poéticos, forjados na imaginação do poeta, que transcendem o físico e envolvem a humanidade inteira em versos de ternura eterna.

        No fim, todos os abraços são fios de uma grande tapeçaria humana, tecendo alegrias e dores, presenças e ausências, em um padrão indecifrável mas belo. Eles nos lembram que, no toque, reside a essência do ser: frágil, eterno, divino.

 

25 de junho de 2025

Carta de Perdão aos que passaram pelo meu caminho



    A todos que, de alguma forma, cruzaram minha jornada e guardam feridas visíveis ou não causadas por mim, venho com sinceridade despir a alma diante do tempo.

Peço perdão.

    Perdão às pessoas que decepcionei com minhas escolhas, palavras ríspidas, silêncios mal explicados ou atitudes impensadas. Perdão aos que confiaram em mim e eu, por egoísmo, cansaço ou confusão, trai essa confiança. Perdão aos que foram bons, generosos, leais e não tiveram a devida reciprocidade. Aos que me estenderam a mão e eu não soube segurar. Aos que me ofertaram amor, tempo e cuidado, e eu não valorizei como deveria.

    Peço perdão às amizades que se tornaram ruínas, não por ódio, mas por desencontros e por minha incapacidade de sustentar vínculos quando minha alma gritava por mudança. Precisei me afastar para sobreviver, para reencontrar quem sou, mas isso não anula as feridas causadas por minha ausência.

    Peço perdão a cada mulher que passou pela minha vida e encontrou em mim algo que não pude sustentar. Não me orgulho dos desencontros, dos afetos interrompidos, das promessas não cumpridas. Se amei mal, se parti corações, se fui egoísta, perdoem-me.

    Peço perdão, também, àqueles que me feriram. Aos que mentiram, traíram, rejeitaram. Aos que partiram sem olhar para trás. Não peço desculpas por me machucar, mas por talvez não ter conseguido corresponder às expectativas, por não ter sido a pessoa que esperavam. Perdoar vocês é me libertar de mim mesmo. Não guardo mágoas, só lições.

    Mas, sobretudo, peço perdão a mim.

    Por todas as vezes que me abandonei tentando agradar. Por todas as vezes que fugi do espelho, com vergonha de quem me tornei. Por todas as vezes que cobrei demais e amei de menos quem eu era. Por ter cultivado culpas em vez de plantar consciência. Hoje, decido me amar. Decido me perdoar. Não para me eximir, mas para evoluir.

    Não escrevo esta carta para buscar pena. Não sou vítima, nem algoz. Escrevo porque preciso romper com os grilhões invisíveis do passado. Preciso respirar fundo e caminhar sem carregar o fardo das culpas, nem as desculpas que nunca recebi. Peço perdão porque quero ser livre. Porque só perdoando posso reconstruir por dentro e por fora.

    A quem quiser acolher esse pedido, que o faça em seu tempo, ou que apenas guarde em silêncio. Não espero absolvição. 


Espero cura.

 



17 de junho de 2025

A Flor da Ingratidão, ou Também amar é ser ferido.



Sim, eu vi…
Você deu tudo de si.
O tempo, o riso, o ombro, o pão.
Ofereceu o que tinha e o que não cabia no bolso,
mas transbordava da alma.

E no entanto,
vieram os dentes onde esperava abraços.
Vieram os olhos tortos onde plantou sinceridade.
Veio o silêncio frio onde habitava sua ternura.

A tragédia da ingratidão não é o esquecimento,
mas a perversão da memória.
Porque não apenas esquecem o que você fez,
mas distorcem o que você foi.

Hoje te aplaudem,
amanhã te apedrejam
e, ironicamente, pelo mesmo gesto.
A mão que salvou também assusta.
O amor que cura também incomoda.

O ingrato não é aquele que não retribui,
é aquele que transforma o bem em suspeita.
É aquele que te olha com o mesmo olhar
com que um lobo observa a mão que alimenta.

Faça o bem e serás criticado por querer parecer santo.
Fale a verdade e será odiado por não ser cúmplice.
Dê amor demais e dirão que é carência.
Afaste-se e dirão que é orgulho.

Se fores gentil, te chamarão de falso.
Se fores direto, te acusarão de rude.
Se fores forte, dirão que és autoritário.
Se fores frágil, rirão da tua fraqueza.

O mesmo sol que aquece, queima.
O mesmo rio que irriga, inunda.
O mesmo coração que ama, apodrece quando pisado.

E então você aprende…
Que não importa o quanto se esforce,
você será lido com os olhos dos outros.
E olhos, meu caro, não são espelhos.
São prismas distorcidos de mágoas não suas.

Mas ainda assim; faça.
Ame, mesmo que cuspam.
Ajude, mesmo que esqueçam.
Perdoe, mesmo que zombem.

Porque a alma que serve não o faz por resposta,
mas por essência.
E é aí que a ingratidão revela sua beleza oculta:
ela não destrói o valor do gesto,
apenas revela o vazio do recipiente que o recebeu.

E no fim, lembre-se:
Alguns te amarão pelo que és.
Outros te odiarão pelo mesmo motivo.
Mas tua missão não é ser aceito.
É ser inteiro.




Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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