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3 de fevereiro de 2026

DO VAZIO QUE HABITA A CERTEZA


 


Navego em mares onde não há farol,

sem bússola celeste a me guiar o rumo,

e neste pélagο de névoa e de presumo,

construo, grão por grão, meu próprio arrebol.

Negaram-me os altares, mas não o sol

que nasce indiferente ao nosso cumo;

e se da fé renuncio ao doce sumo,

resta-me o peso insone do controle.

Porque é fardo também não ter certeza

do abraço que nos salva além da morte,

e erguer, sozinho, toda a fortaleza

da ética sem véu, da humana sorte.

Invejo, sim, a transcendente empresa

mas habito o real: meu céu e norte.

 

Há noites em que o cosmos me interroga

com seus bilhões de sóis indiferentes,

e sinto que as respostas mais prudentes

são as que a razão sóbria não derroga.

Mas algo em mim, secreto, ainda prorrogα

a solidão dos seres conscientes;

busco nas sombras vestígios patentes

de um sentido que a lógica não aloga.

Viver sem crer não é viver sem fome

do inexplicável, do que nos transcende

é aceitar que o mistério não se dome,

que nenhum dogma o abismo nos defende.

E nesse desamparo, acho meu nome:

humano que questiona e não se rende.

 

Abri mão das preces, não da reverência;

do templo, mas não do recolhimento.

Há liturgias no puro pensamento,

há graça mesmo em plena contingência.

Troquei a providência pela ciência,

o eterno pelo efêmero tormento,

e encontro neste lúcido momento

não paz talvez, mas íntegra existência.

Pois fé não é somente a que se ajoelha

diante do altar ou da promessa vã;

é crer também que a vida, embora velha

de dor e perda, ainda nos engana

com lampejos de amor e nisso se assemelha

ao sonho que os devotos chamam de mana.

 

Entre o vazio e o excesso de sentido,

habito a margem, o lugar incerto

onde o sagrado e o profano, perto,

dialogam sem que um seja desmentido.

Não creio, mas não julgo o convertido

que encontra no divino o campo aberto;

respeito o mistério que não decifro,

honro o silêncio, mesmo incompreendido.

Porque viver sem crer é também crer

na dignidade do que somos, nus,

sem outro amparo além do próprio ser.

É acender, na escuridão, a luz

da consciência e com ela aprender

que somos, ao final, nosso Jesus.




2 de fevereiro de 2026

Espelho Partido


 

A mesa posta do afeto, sentam-se dois estranhos

Que um dia se amaram e foram apenas um.

Ele tentando reconhecer a mulher que um dia amou

E Ela observando um estranho como nunca o tivesse visto.

 

Um narcisista e outro egocêntrico sentados frente a frente,

Afogados entre o rancor e a ingratidão.

Repetindo palavras alheias

Expondo feridas que nunca foram curadas.

 

Uma contabilidade jurídica afetiva que não fecha,

Onde cada beijo é uma moeda e cada abraço um desagravo.

Nos olhares apenas ressentimento com reflexos de dores

E imagens de um passado que nunca foi superado e ressignificado.

 

Palavras vazias ecoam no abismo da desilusão

Pelo o espelhamento psicológico de um amor doente.

As línguas prontas para destilar o veneno

Que derrama para dentro do coração.

 

Cada um projeta no outro o carrasco e a vítima,

o salvador e o náufrago, o algoz e o inocente,

numa dança de máscaras que se tornou rotina.

Até que o espelho racha refletindo imagens despedaçadas pelos cacos.

 

Resta a pergunta que nenhum dos dois ousa fazer:

Quem é o ingrato, aquele que não agradece

ou aquele que dá esperando receber,

mantendo o livro-caixa do amor que perece?

 

Na Academia das Dores Compartilhadas,

onde se estuda a anatomia dos afetos despedaçados,

fica a lição escrita em versos e em lágrimas guardadas:

amor não é espelho; é janela para o outro lado.




27 de janeiro de 2026

O Paradoxo do Sábio que Encolhe




        No vasto oceano do saber, o tolo nada à superfície, agitando ondas furiosas em debates vazios sobre abismos que jamais sondou. Ele briga por ilhas imaginárias, erguendo torres de ignorância com tijolos de presunção, pois o pouco que crê possuir é seu único tesouro. Já o sábio, quanto mais mergulha nas profundezas estudando, questionando e absorvendo, percebe o infinito que resta inexplorado; sua inteligência se expande na humildade, admitindo o "não sei" como portal para o verdadeiro saber. Assim, o conhecimento não infla o ego, mas o dissolve, revelando que a sabedoria nasce do silêncio reverente ante o mistério.



20 de janeiro de 2026

Bateria Social Esgotada






Minha bateria social viciada se apaga no breu,
esgotada de máscaras e de fingimentos vazios.
Sem ânimo pra rostos que somem no vácuo,
pra ser formal com quem não está nem ai para mim. ​

Hipocrisia nas redes, demagogia em posts,
pessoas que curtem sem tocar a alma.
Não suporto o teatro de likes e stories frios,
fantasmas digitais que não aquecem o peito.

Prefiro o silêncio da minha trilha solitária,
dizer não aos convites que drenam a essência.
Cicatrizes de traições me ensinaram o preço,
da qualidade no tempo, não na multidão falsa.

No fim, recarrego na poesia e no vento,
deixando pra trás o que não soma, não cura.
Sou o esquecedor ilustre, livre do peso,
bateria zerada e alma em chamas puras.



15 de janeiro de 2026

Presente supremo

             



          Esqueço nomes assim como esqueço rostos, minha sina é o desapego total. Pessoas vêm e vão - eu continuo e apenas continuo com meus pensamentos e minha forma original de ser. 

Sou um mero esquecedor e ignorador de opiniões alheias. Por mim, formalidades se afundam no abismo do esquecimento. Não me importo se nasceu ou se morreu. Se casou e se divorciou. Se gosta ou ignora. Se é importante ou não - Apenas observo e extraio o momento. 

Importo-me apenas com o prazer, com o instante, com o presente, com a dádiva de degustar, de experimentar e viver. Felicidade, esperança, fé e ideologias são apenas fábulas que se evaporam no tempo. 

Do passado não me lembro mais!

No futuro não estou lá ainda e não sei se vou chegar.  

Como agente trivial, sazonal e temporal; A mim vale apenas o presente que me é supremo.





Baralho da Eternidade


 

Há motivos que levamos pro túmulo escuro,

selados na eternidade, sem chave ou rumor.

Coisas inexplicáveis, que a língua não doma,

e se ousamos explicar, o mundo nos ignora.

 

Sentimentos profundos, dores que só nós vemos,

razões íntimas, guardiãs de segredos tremem.

Ninguém mais as toca, são nossas, puras e nuas,

excluídas do eco, fiéis às nossas luas.

 

Poesia, música, conversas no vento leve...

nada expõe o todo, só fragmentos que escreve.

É um baralho embaralhado no peito confuso,

descartamos cartas aos poucos, no jogo perduso.

 

Algumas ficam no fundo, áses da solidão,

eternos mistérios que o tempo não levará.

E assim vamos, jogando sombras no vazio,

com o coração como monte, inexplicado e vivo.




4 de janeiro de 2026

Ensaio Poético, ou Abraços que Tecem a Alma.


        Abraços que acolhem o peito e fazem a alma repousar, como o manto suave de uma madrugada serena, envolvendo o corpo exausto em um casulo de paz esquecida. Abraços cordiais, formais e sem afeto, trocados em salões frios de convenções sociais, onde os braços se cruzam por dever, mas o coração permanece intocado, um ritual vazio de calor humano. Abraços de saudade e de nostalgia, aqueles que apertam o ar entre os corpos ausentes, evocando cheiros de infâncias perdidas e risos ecoados no tempo, como fantasmas que se entrelaçam na penumbra da memória.

        Abraços de despedida, breves e cortantes como lâminas de adeus, que marcam a pele com a promessa de um vazio eterno, deixando o peito latejante de promessas não cumpridas. Abraços apaixonados e acalorados, fogos vorazes que consomem distâncias, fundindo peles suadas em um só pulsar, onde o desejo grita mais alto que qualquer palavra sussurrada. Abraços por abraçar, mecânicos e despretensiosos, dados ao estranho na rua ou ao amigo de passagem, um gesto banal que, por um instante, humaniza o caos da multidão.

    Abraços de família, raízes entrelaçadas em um emaranhado de braços e histórias compartilhadas, onde o sangue pulsa no mesmo ritmo, curando feridas invisíveis com a força de laços inquebráveis. Abraços de pai com filha, fortes e protetores como muralhas antigas, que carregam o peso de silêncios compreendidos, um colo que ensina a voar sem medo de cair. Abraços que não precisam de palavras para se eternizar, mudos e profundos, gravados na eternidade do toque, onde o olhar diz tudo e o corpo completa o verso inacabado.

      Abraços de quem ama e manifesta seus sentimentos com atitudes, não com flores murchas ou juras vazias, mas com o aperto firme que diz "estou aqui" em meio às tormentas da vida. Abraços de medo, apertados e trêmulos nas noites de pavor, onde dois corpos se unem contra o abismo, tecendo coragem a partir do tremor compartilhado. Abraços que fazem a cabeça reclinar nobre o peito com ato de amor, um ninho sagrado onde o mundo lá fora se dissolve, e resta apenas o ritmo compassado de dois corações em sintonia divina.

        Abraços de encontro, explosões de reencontro após anos de separação, que dissolvem o tempo em um só instante, reavivando chamas adormecidas com o mero roçar de peles. Abraços nunca mais vão se repetir, únicos e irrepetíveis, como estrelas cadentes que cruzam o céu uma única vez, deixando trilhas de luz na escuridão da alma. Abraços de Judas, traiçoeiros e doces na superfície, que beijam a face enquanto afiam a lâmina nas costas, um veneno disfarçado de afeto que corrói a confiança de dentro para fora.

        Abraços que fazem do silêncio uma eternidade de acolhimento e paz, onde o não dito se torna hino, e o vazio entre os braços se enche de compreensão infinita. Abraços de gratidão, leves como brisa de outono, dados ao destino por mais um dia de luz, um obrigado encarnado no gesto simples. Abraços de cura, balsâmicos e demorados, que cicatrizam feridas antigas com o calor da presença, transformando dor em lição sussurrada pelo toque.

        Abraços de criança com o mundo, inocentes e exploradores, que abraçam árvores, ventos e desconhecidos com a fome insaciável de descoberta, sem medo de rejeição. Abraços de luto, pesados e chorosos, que carregam o peso do ausente, unindo os vivos em uma rede de solidariedade tecida pela dor comum. Abraços eróticos, lentos e provocantes, que dançam na fronteira do prazer, acordando sentidos adormecidos com promessas de êxtase velado.

        Abraços de perdão, amplos e libertadores, que desfazem nós de rancor com a força de um reencontro purificado, lavando culpas no rio do afeto renovado. Abraços de vitória compartilhada, eufóricos e saltitantes, que erguem os corpos no ar como troféus vivos, celebrando conquistas com o clangor de risos entrelaçados. Abraços de solidão fingida, dados ao espelho ou ao travesseiro, ilusões que mascaram o vazio, mas alimentam a esperança de um toque real por vir.

        Abraços culturais, rituais de nações e povos, como os urso dos russos ou os efusivos dos latinos, pontes entre mundos que dissolvem fronteiras em um só pulsar universal. Abraços de pets fiéis, peludos e incondicionais, que curam o dia ruim com lambidas e ronrons, lembrando que o amor puro não precisa de palavras humanas. Abraços cósmicos, imaginados com o universo, onde o peito se abre para estrelas distantes, sentindo o abraço infinito da criação em noites de insônia contemplativa.

        Abraços que salvam vidas, dados no limiar do desespero, puxando a alma de volta do abismo com a âncora do calor alheio. Abraços efêmeros, como os de um metrô lotado, anônimos e passageiros, que por frações de segundo unem estranhos em uma sinfonia coletiva de proximidade. Abraços poéticos, forjados na imaginação do poeta, que transcendem o físico e envolvem a humanidade inteira em versos de ternura eterna.

        No fim, todos os abraços são fios de uma grande tapeçaria humana, tecendo alegrias e dores, presenças e ausências, em um padrão indecifrável mas belo. Eles nos lembram que, no toque, reside a essência do ser: frágil, eterno, divino.

 

2 de janeiro de 2026

Saudade em Escombros


 

Crimes perfeitos, amores hediondos,

Beijos envenenados, saudade pelas esquinas,

Caminho pela cidade, olhos que sangram,

Multidão solitária, almas em ruínas.

 

Por quê tanta dor onde há fé?

Por quê pessoas que se amam se humilham tanto?

Falam muito, ouvem nada, ecos vazios,

- O peito chora por enquanto.

 

Ruas de ferro, corações partidos,

Fé que treme sob o peso da cruz.

Intimidade vira lâmina afiada,

Palavras voam, silêncios se afogam.

 

Escombros de sonhos, multidão cega,

Eu transpasso o sofrimento alheio,

Solitários em si, na dança da rua,

Pergunto ao vento: por quê, por quê?

 

Por quê abismos na luz da profundidade?

Por quê veneno na doce nudez?

Dizem oceanos, sorvem o vazio,

Por quês sem fim, na dança dos escombros eu me perco.




31 de dezembro de 2025

Da Lei Divina à Lei Humana: A Evolução dos Pecados Bíblicos em Crimes e Normas Sociais





        A noção de "pecado" na Bíblia, codificada há mais de três mil anos por tribos nômades do deserto do Oriente Médio, representava um código espiritual rígido, muitas vezes arbitrário, que regulava a vida cotidiana sob pena de punição divina. Esses preceitos, enraizados em contextos tribais, patriarcais e agrários, foram superados pelo avanço da sociedade humana. O que outrora era "pecado" — uma ofensa contra deuses irados — foi absorvido pelas constituições modernas, pelos direitos humanos universais e pelas condutas éticas da convivência civilizada. Hoje, o Código Penal e o Código Civil tipificam como crimes graves o que a Bíblia condenava como impureza espiritual; questões menores viraram mera imoralidade ou falta de ética. Essa transição não é mero acidente histórico, mas fruto da razão coletiva, do Iluminismo, das revoluções sociais e do humanismo secular. Neste ensaio, comparamos esses "pecados" com as leis contemporâneas, destacamos os absurdos bíblicos abolidos e traçamos a evolução do direito e da sociedade, com ênfase na emancipação feminina.

Pecados Absorvidos: Do Sagrado ao Secular

        Muitos mandamentos bíblicos foram secularizados, perdendo o manto divino para ganhar força legal. Tomemos o assassinato: no Êxodo 20:13, "Não matarás" é o sexto mandamento, um pecado capital punido com a ira de Deus. Hoje, o artigo 121 do Código Penal brasileiro define homicídio como crime, com penas de 6 a 20 anos de reclusão, sem apelos a entidades sobrenaturais. O roubo, proibido em Êxodo 20:15, vira furto ou roubo (artigos 155 e 157 do CP), com agravantes para vulneráveis. A mentira, outrora pecado contra o nono mandamento ("Não darás falso testemunho"), é agora crime de calúnia, difamação ou injúria (artigos 138 a 140), regulado pela esfera civil e penal.

        O dízimo, instituído em Deuteronômio 14:22-29 para sustentar viúvas, órfãos, estrangeiros e levitas no Templo, era uma obrigação espiritual sob risco de maldição divina (Malaquias 3:8-10). Hoje, o Estado brasileiro, via Constituição Federal de 1988 (artigo 6º), cobra impostos como IR, ICMS e contribuições previdenciárias, destinando-os a programas sociais como Bolsa Família, SUS e aposentadorias. A sociedade evoluiu de uma teocracia tribal para um welfare state laico, onde a solidariedade é dever cívico, não barganha com deuses.

        Esses exemplos ilustram a absorção: o que era "pecado" contra Javé virou crime contra a sociedade ou obrigação contratual. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) elevou isso a patamar universal, priorizando a dignidade humana sobre dogmas antigos.

Absurdos Abolidos: Práticas "Normais" que Hoje São Crimes Hediondos

        A Bíblia não só condenava pecados, mas normalizava horrores que chocam a consciência moderna. Esses absurdos, vistos como vontade divina, foram varridos pela evolução ética e legal, expondo a limitação temporal de textos sagrados.

        A escravidão, longe de ser pecaminosa, era endossada. Em Levítico 25:44-46, hebreus podiam comprar escravos de nações vizinhas como "propriedade perpétua", herdáveis como gado. Êxodo 21:20-21 permite bater no escravo sem punição, desde que não morra imediatamente. Paulo, no Novo Testamento (Efésios 6:5), exorta escravos a obedecerem senhores "como a Cristo". Hoje, a escravidão é crime inafiançável no Brasil (artigo 149 do CP, Lei 13.344/2016), condenado pela ONU como violação aos direitos humanos. A sociedade aboliu o que a Bíblia santificava, graças a abolicionistas como Joaquim Nabuco e à Convenção 29 da OIT (1930).

    Sacrifícios animais, rotina no Antigo Testamento (Levítico 1-7), envolviam milhares de bois, ovelhas e aves queimados para apaziguar Deus — um "cheiro suave" (Gênesis 8:21). Hoje, isso é crime de maus-tratos (Lei 9.605/1998, artigo 32), com penas de detenção e multa. A proteção animal evoluiu de pitágoras à legislação ambiental, priorizando empatia sobre rituais sangrentos.

        A lapidação por adultério ou blasfêmia era mandamento divino: Levítico 20:10 prescreve morte por apedrejamento para adúlteros; Deuteronômio 13:6-10, para quem seduzisse à idolatria, inclusive familiares. Em João 8:3-11, fariseus tentam apedrejar uma adúltera perante Jesus. Hoje, tais execuções sumárias violam o devido processo legal (Constituição, artigo 5º, LVII) e são genocídio ou crime contra humanidade (Estatuto de Roma, 1998). A pena de morte, comum na Bíblia (mais de 30 ofensas capitais), foi abolida no Brasil desde 1889, refletindo o humanismo kantiano: tratar pessoas como fins, não meios.

        Outros absurdos: comer mariscos ou coelhos era "abominação" (Levítico 11:7-12), punível espiritualmente; hoje, é liberdade alimentar. Trabalhar no sábado merecia morte (Êxodo 31:14-15); agora, é direito trabalhista (CLT, folga semanal). Homossexualidade era pecado mortal (Levítico 20:13, morte por lapidação); hoje, é orientação protegida pela Constituição (artigo 5º, XLI) e STF (ADO 26/2011), com casamento igualitário.

        Esses exemplos revelam a Bíblia como produto de sua era: útil para coesão tribal, obsoleta para civilizações complexas.

A Mulher: Da Submissão à Igualdade Plena

        O tratamento à mulher na Bíblia exemplifica o patriarcado mais cruel, normalizado como ordem divina. Gênesis 3:16 condena Eva à submissão eterna: "Teu desejo será para teu marido, e ele te governará". Números 30:3-15 permite que pais ou maridos anulem votos femininos, tratando-as como incapazes. Em Êxodo 21:7-11, uma filha vendida como escrava concubina não ganha liberdade após seis anos. Levítico 12:2-5 impõe impureza ritual maior à mulher pós-parto de menina (14 dias vs. 7 de menino). Adultério era pecado só para mulheres (Deuteronômio 22:22), enquanto homens podiam ter múltiplas esposas (2 Samuel 5:13). No Novo Testamento, 1 Coríntios 14:34 manda mulheres "calar-se na igreja" e 1 Timóteo 2:12 proíbe-as ensinar ou autoridade sobre homens.

        Estupro? Deuteronômio 22:28-29 obriga a vítima a casar com o agressor, pagando 50 siclos ao pai — uma transação comercial. Viúvas e divorciadas eram economicamente dependentes, sem herança (Números 27 é exceção rara).

        Hoje, a revolução é radical. A Constituição de 1988 garante igualdade (artigo 5º, I), voto feminino desde 1932 (Lei 1.076, ampliado em 1934), e Lei Maria da Penha (11.340/2006) pune violência doméstica. Mulheres votam, elegem-se (Dilma Rousseff foi presidente), administram empresas (55% das microempresas no Brasil são femininas, Sebrae 2023) e dominam universidades (57% dos inscritos no Enem 2023, Inep). Globalmente, Angela Merkel, Jacinda Ardern e Christine Lagarde exemplificam liderança feminina. Essa evolução veio de sufragistas como Olympe de Gouges e Simone de Beauvoir, não de textos sagrados.
A Evolução da Sociedade e do Direito: Razão Sobre Revelação

        A sociedade progrediu de teocracias medievais para democracias laicas, guiada pela razão iluminista (Locke, Voltaire, Rousseau). A Magna Carta (1215) plantou sementes de direitos; revoluções Francesa (1789) e Americana (1776) sepultaram o divino direito dos reis. Darwin (1859) e Freud (séc. XX) desmistificaram o homem como centro divino, pavimentando o secularismo.

        No Brasil, a Constituição de 1988 — pós-ditadura — consagra dignidade (artigo 1º, III), pluralismo religioso e laicidade estatal. Direitos Humanos, via Pacto de San José da Costa Rica (ratificado em 1992), protegem minorias que a Bíblia oprimia. A ética evoluiu de "olho por olho" (Êxodo 21:24) para reabilitação penal (Lei de Execução Penal 7.210/1984).

        Essa trajetória mostra leis como construção humana, adaptável. O que era "normal" — escravidão, misoginia, sacrifícios — caiu porque a empatia coletiva cresceu. Países como a Noruega (índice de igualdade 0,84, Fórum Econômico Mundial 2023) exemplificam o auge: prisões restaurativas, paridade de gênero, proteção animal.

Conclusão: Superação do Passado Tribal

         Não existe pecado eterno; há normas transitórias. A Bíblia, relíquia poética de nômades, foi superada por constituições vivas, direitos humanos e ética societal. Absurdos como escravidão endossada, lapidações e subjugação feminina foram abolidos não por nova revelação, mas por consciência coletiva. Hoje, mentiras viram fake news reguladas (PL 2630/2020); discriminação, crime (Lei 7.716/1989). A humanidade evolui: de deuses vingativos a solidariedade racional. Honrar o passado não significa idolatrá-lo; criticá-lo impulsiona o futuro.



Em verdade vos digo (...)





O que eu chamava de absoluto

cedeu à dúvida

e a dúvida me ensinou mais que a certeza.


Os muros do preconceito,

erguidos por ignorância herdada,

ruíram quando encarei o outro sem medo.

Compreender é mais difícil que julgar.

Por isso, liberta.


Minha fé desceu do céu para o chão.

Saiu dos dogmas, entrou na experiência.

Hoje, creio no que toca, no que resiste ao teste do real,

no que se prova na vida

não no que se impõe pelo medo.


A política?

Prometeu salvação, entregou abandono.

Bandeiras não pagaram minhas contas,

discursos não seguraram minha mão.

Aprendi: partidos se alimentam de esperança alheia,

não de lealdade.


Resta-me o essencial:

pensar por conta própria,

errar com honestidade,

mudar sem pedir desculpas.


Não sou menos por duvidar.

Sou mais inteiro.


Em verdade vos digo

a lucidez dói,

mas a cegueira cobra mais caro.



30 de dezembro de 2025

O Engodo Eterno: Da Caverna de Platão aos Algoritmos da IA




        A humanidade, desde suas origens, tece uma teia de ilusões que a impede de enfrentar a realidade nua e crua. Perguntamo-nos: fomos enganados o tempo todo? Sim, e o engodo persiste porque nossa mente, moldada pela evolução para sobreviver em um mundo hostil, prefere narrativas reconfortantes a verdades incômodas. Deus inventado por tribos do Oriente Médio? Um Messias celestial? Políticos de esquerda ou direita como salvadores? Times de futebol, amores perfeitos, meritocracia capitalista ou socialismo utópico? Tudo isso são sofismas que alimentam paixões infames, distrações que mascaram o vazio existencial. Ignoramos que religiões são prisões mentais, ideologias políticas são ferramentas de controle, e até a IA, com suas imagens falsas e notícias fabricadas, nos arrasta para um labirinto de irrealidade. Onde chegamos? A um ponto em que nem distinguimos o real do simulado. E o futuro? Seremos servos dos deuses que criamos – algoritmos, corporações, messias digitais –, a menos que rompamos o ciclo.

        Para compreender esse domínio, traçamos uma linha cronológica dos engodos na evolução humana, mostrando como crenças e esperanças substituíram a razão bruta:

  • Pré-história (200.000 a.C. - 10.000 a.C.): Sobrevivência tribal gera animismo e xamanismo – espíritos na natureza explicam o incontrolável, unindo grupos contra o medo primal.
  • Antiguidade (3.000 a.C. - 500 d.C.): Religiões organizadas (suméria, egípcia, judaica) e filosofias como o mito da caverna de Platão revelam o sofisma: elites usam deuses para justificar impérios e escravidão.
  • Idade Média (500-1500): Cristianismo e Islã dominam; Igreja controla conhecimento, prometendo paraíso eterno para aplacar fome e peste – esperança como ópio das massas.
  • Iluminismo e Revoluções (século XVIII-XIX): Secularização critica dogmas religiosos, mas gera ideologias políticas (liberalismo, socialismo) – promessas de igualdade via Estado substituem deuses por messias humanos como Robespierre ou Marx.
  • Século XX: Capitalismo meritocrático e totalitarismos (nazismo, stalinismo) provam falhas; guerras mundiais e Holocausto expõem ilusões, mas consumismo e esportes viram novas religiões – paixão pelo time como identidade falsa.
  • Era Digital (2000-hoje): IA e redes sociais amplificam deepfakes, fake news e bolhas ideológicas; buscamos respostas simples (vacinas conspiratórias, criptomoedas salvadoras) para crises complexas como aquecimento global e desigualdade.

        Essa cronologia ilustra o padrão: cada era substitui um engodo por outro, sempre apelando à esperança para domar o caos. Por quê? Porque o cérebro humano evoluiu para narrativas – a seleção natural favorece quem crê em tribos unificadas por mitos, não o cético isolado. Religião prende pela culpa eterna; política, pela divisão tribal; capitalismo, pela ilusão do "self-made man" em um mundo de heranças; socialismo, pela utopia coletiva que ignora a ganância inerente. Hoje, a IA nos engana com perfeição: fotos irreais de felicidade, notícias polarizadas, conhecimentos sintetizados que soam verdadeiros. Chegamos ao ápice do sofisma – um mundo hiper-real onde a simulação suplanta o real, como previu Baudrillard.

        Qual o futuro da humanidade? Sem ruptura, servidão aos "deuses criados": bilionários de IA como Zuckerberg ou algoritmos que ditam eleições. A solução? Emancipação via ceticismo radical e estoicismo prático – não respostas simples, mas aceitação do absurdo camusiano. Eduque para o pensamento crítico desde a infância, desmonte instituições ideológicas, priorize ciência empírica sobre fé. O modo de emancipação é coletivo, mas individual: questione tudo, inclusive esta redação. Só assim escapamos da prisão mental que nos define há milênios.


22 de dezembro de 2025

Soneto do Calabouço Vivo



A beleza brota na contemplação,
no espanto puro, na surpresa da vida,
calabouço de dores que nos invade,
sentimentos em excessos, vazios na mão.

Prazeres que ardem, real que nos fere,
expõe a alma nua, sem véu ou ilusão,
fé, esperança e amor são a salvação,
antídotos vivos que o sofrimento esfare.

No breu do viver, achamos o divino,
luz que trespassa o caos confinado,
esperança tece a ponte ao infinito.

Amor cura o grito, fé ilumina o caminho,
no espanto da existência, tudo é sagrado,
beleza eterna no coração ferido.



3 de dezembro de 2025

Por fim, é isso!



 

Abraços apertados e frios,

Olhares penetrantes e maliciosos,

Palavras, promessas e falsas formalidades (...).

 

A corrupção e a má intenção

Se repousam sobre interesses escusos,

A ética e a moral perderam os seus valores

Por favores e utilidades.

Ninguém te ama!

Ninguém se importa com você.

As pessoas te usam pela conveniência

E pelas vantagens que elas podem extrair.

 

Homens usam mulheres para o sexo,

Mulheres usam os homens por outros interesses,

As empresas exploram pessoas,

Pessoas valem-se das empresas por dinheiro,

O Estado acabrunha a sociedade

E a sociedade busca no Estado seu escombro.

Deus recompensa o céu ameaçando com o inferno

E o ser humano barganha a própria vida pelo o medo.

 

Por fim, é isso!

 

 

 

 

 

1 de dezembro de 2025

O Manual Delicado do Intolerável.


    


    Há erros que escorregam da mão como vidro molhado: caem, machucam, fazem barulho; mas dá pra juntar os cacos, limpar o sangue e seguir. Há desculpas que, apesar de tardias, ainda carregam o cheiro morno da humanidade. Tudo isso é tolerável, revisável, perdoável.

    Mas há escolhas que não pedem desculpa: pedem distância.

    Caráter não falha por acidente. Traição não nasce por engano. Mentira não escapa espontânea como soluço. Essas decisões são cirúrgicas, frias, calculadas o suficiente para revelar aquilo que ninguém gosta de admitir: algumas pessoas nos mostram exatamente quem são; e a única resposta digna é caminhar para longe.

    A inveja e o ciúme são sombras inevitáveis. Não são bonitas, nem nobres, mas fazem parte do terreno acidentado da alma humana. Com conversa, com tempo, com vontade, se ajeitam. São tempestades que passam.

    Já a sacanagem, a quebra deliberada da confiança, o tapa nas costas disfarçado de abraço; isso não se conserta. Não há cola que grude o respeito depois dele ser cuspido no chão.

    A vida é curta demais para conviver com o que nos envenena. Tolerância não é covardia, mas insistir no intolerável é. E a lucidez cobra caro: às vezes o preço é aprender a fechar a porta com firmeza, mesmo quando o coração treme.

    No fim, é simples: o que não é recíproco, não é lar. E o que fere de propósito, não merece retorno.










4 de novembro de 2025

O Prazer do Proibido, ou o Submundo da personalidade humana.



Em sombras quietas brilha a tentação,
O que o certo manda evita o ser,
Mas o fruto escondido é sedução,
Que difícil é o homem deter.


Da ordem feita cresce a inquietude,
No não permitido nasce o desejo,
Que quebra a lei, a ética e a virtude,
E fere a confiança com seu ensejo.


Pois no proibido habita o anseio,
De sentir o risco, o fogo, a ardência,
Mesmo que ao fim reste só o vazio.


É prazer fugaz que traz receio,
Que destrói o laço e a consciência,
E cobra caro o custo do desafio.



27 de outubro de 2025

A Verdade Nua, ou o submundo da realidade.


 

Direi apenas e tão somente a verdade

Não pisarei em ovos com minhas palavras

A realidade não é flor de altar

Mas lámina fría sob a pele.

 

Compreenda que o mundo não te deve nada

Nem aplausos, nem favor e muito menos perdão.

 

A vida não é justa

É apenas real (nada mais que isso).

A realidade não se curva aos desejos

E não se compadece de sonhos mal vividos.

 

O fracasso não é falta de sorte

É o preço do conforto.

Tua dor não é castigo

É o eco das escolhas que fizeste

e fruto do acaso ainda não explicado.

 

Levanta-te, encare o espelho

O seu inimigo está diante de você,

O teu salvador também

A espada que corta é a mesma que liberta.

 

Os que encaram a dor sem fugir

Tem o privilégio de lutar pela vida. 




13 de outubro de 2025

O tripé das relações humanas




Ser humilde é tocar o infinito com os pés no chão.

É reconhecer que o brilho do outro não apaga o nosso; apenas ilumina mais o caminho.
A humildade é a arte dos gigantes de alma, daqueles que não precisam subir em ninguém para enxergar longe.

Ter gratidão é dançar com o tempo, é saber que nada é por acaso, que até a dor ensina, que até o tropeço tem um propósito.
É a memória do coração, o reconhecimento silencioso de que cada gesto recebido é uma semente plantada na eternidade.

E saber pedir perdão… ah, isso é ser nobre.
É desarmar o ego, despir-se do orgulho e confessar a própria humanidade.
É curvar-se diante do outro não por fraqueza, mas por grandeza.
Pois quem pede perdão não se humilha — se liberta.

Humildade, gratidão e perdão: três pilares invisíveis que sustentam tudo o que é verdadeiramente humano.
Sem eles, o amor vira vaidade, a convivência vira disputa, e a vida perde o sentido.


Mas quando esses três caminham juntos, até o caos encontra harmonia.
Porque o coração que é humilde, grato e capaz de perdoar…
esse sim, conhece a grandeza de existir em paz.




 

Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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