Navego em mares onde não há farol,
sem bússola celeste a me guiar o rumo,
e neste pélagο de névoa e de presumo,
construo, grão por grão, meu próprio arrebol.
Negaram-me os altares, mas não o sol
que nasce indiferente ao nosso cumo;
e se da fé renuncio ao doce sumo,
resta-me o peso insone do controle.
Porque é fardo também não ter certeza
do abraço que nos salva além da morte,
e erguer, sozinho, toda a fortaleza
da ética sem véu, da humana sorte.
Invejo, sim, a transcendente empresa
mas habito o real: meu céu e norte.
Há noites em que o cosmos me interroga
com seus bilhões de sóis indiferentes,
e sinto que as respostas mais prudentes
são as que a razão sóbria não derroga.
Mas algo em mim, secreto, ainda prorrogα
a solidão dos seres conscientes;
busco nas sombras vestígios patentes
de um sentido que a lógica não aloga.
Viver sem crer não é viver sem fome
do inexplicável, do que nos transcende
é aceitar que o mistério não se dome,
que nenhum dogma o abismo nos defende.
E nesse desamparo, acho meu nome:
humano que questiona e não se rende.
Abri mão das preces, não da reverência;
do templo, mas não do recolhimento.
Há liturgias no puro pensamento,
há graça mesmo em plena contingência.
Troquei a providência pela ciência,
o eterno pelo efêmero tormento,
e encontro neste lúcido momento
não paz talvez, mas íntegra existência.
Pois fé não é somente a que se ajoelha
diante do altar ou da promessa vã;
é crer também que a vida, embora velha
de dor e perda, ainda nos engana
com lampejos de amor e nisso se assemelha
ao sonho que os devotos chamam de mana.
Entre o vazio e o excesso de sentido,
habito a margem, o lugar incerto
onde o sagrado e o profano, perto,
dialogam sem que um seja desmentido.
Não creio, mas não julgo o convertido
que encontra no divino o campo aberto;
respeito o mistério que não decifro,
honro o silêncio, mesmo incompreendido.
Porque viver sem crer é também crer
na dignidade do que somos, nus,
sem outro amparo além do próprio ser.
É acender, na escuridão, a luz
da consciência e com ela aprender
que somos, ao final, nosso Jesus.



