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26 de outubro de 2026

A LEALDADE NÃO SE JURA, SE REVELA



Há quem jure amor eterno, prometa fidelidade e faça da própria boca um altar de promessas. Jura estar presente em todas as tempestades, promete nunca abandonar, fala de lealdade como se a palavra, por si só, fosse capaz de garantir a verdade de um sentimento. Mas o tempo, senhor de todas as máscaras, encarrega-se de revelar que nem toda promessa nasce de um coração sincero.

Hoje, alguém jura amor; amanhã, entrega traição. Hoje, oferece a mão; amanhã, conspira pelas costas. Hoje, beija o teu rosto; amanhã, fere a tua honra. Porque, infelizmente, a mesma boca que te elogia pode ser aquela que te difama, e o mesmo abraço que te acolhe pode esconder a intenção de te destruir.

Há sorrisos que escondem inveja, palavras que disfarçam interesses e afetos que só permanecem enquanto existe alguma vantagem. Existem pessoas que não se aproximam pelo que tu és, mas pelo que podes oferecer. Não amam a tua essência, apenas desfrutam dos benefícios da tua presença.

Em contrapartida, há pessoas que não prometem eternidade, não fazem juras solenes, não precisam anunciar ao mundo a grandeza dos seus sentimentos. Simplesmente ficam. Demonstram. Cuidam. Respeitam. Estendem a mão sem calcular o retorno e oferecem amizade sem transformar afeto em moeda de troca.

São essas pessoas que compreendem que a verdadeira lealdade não precisa de plateia, que o carinho genuíno não exige reconhecimento e que a amizade sincera não se alimenta de conveniências. Elas não precisam jurar que jamais te decepcionarão; procuram, todos os dias, não ser a razão da tua decepção.

Porque o caráter não se mede pelo que alguém promete, mas pelo que é capaz de sustentar quando ninguém está olhando.

Uma relação não sobrevive de juras, discursos apaixonados ou palavras cuidadosamente escolhidas. Sobrevive de atitudes, respeito, reciprocidade e verdade. O amor pode ser declarado em segundos, mas a lealdade é construída no silêncio dos dias, nas pequenas escolhas, nas ausências que não abandonam e nas presenças que não cobram preço.

No fim, cada pessoa oferece aquilo que carrega dentro de si. Há quem tenha o coração cheio de afeto e as mãos vazias de interesses; há quem tenha a boca cheia de promessas e a alma desprovida de compromisso. Não se pode exigir sinceridade de quem vive de aparências, assim como não se deve confundir palavras bonitas com sentimentos verdadeiros.

Aprendi que não é preciso prometer ficar para demonstrar permanência, nem jurar fidelidade para provar lealdade. Quem é verdadeiro não precisa transformar o sentimento em espetáculo. A sua conduta fala, as suas escolhas confirmam e o seu caráter responde quando as palavras já não conseguem sustentar a mentira.

Por isso, desconfio menos de quem promete pouco e observo mais quem demonstra muito. Prefiro a presença discreta à devoção teatral, a amizade desinteressada aos afetos calculados e uma verdade dolorosa a mil mentiras revestidas de carinho.

Que me faltem juras, mas nunca sinceridade. Que me faltem discursos, mas nunca respeito. Que me faltem promessas de eternidade, mas nunca pessoas que saibam honrar a presença que lhes ofereço.

Porque o amor pode ser jurado por qualquer boca, mas a lealdade só pode ser comprovada por um caráter.

E, quando a vida finalmente retirar as máscaras, pouco importará quem jurou amor eterno, quem prometeu nunca trair ou quem declarou fidelidade até o fim.

Importará apenas quem permaneceu verdadeiro quando poderia ter sido falso, quem protegeu a tua ausência em vez de difamar a tua presença e quem, tendo mil oportunidades para te ferir, escolheu jamais negociar a própria dignidade.

No fim, não são as promessas que eternizam os laços, mas a verdade daqueles que os sustentam.

Afinal, lealdade não é o que se jura diante de alguém. É o que se respeita dentro de si, mesmo quando o outro não está presente.





24 de junho de 2026

O Encontro, ou Provérbios do amor.


 

Há um homem que caminha,

há uma mulher que o espera,

como a terra anseia a chuva

Há uma estação para a entrega.

 

Eis que se encontram dois rios,

descendo de monte distinto,

e o que era água separada

se torna um só labirinto.

 

Ele fala como a voz de um vinho

Denso e saboroso,

ela responde com gestos de mel

Destilando sensualidade.

 

O diálogo entre os dois

é dança das palavras e do encontro,

um pergunta e o outro revela,

um se cala e o outro entende.

 

Não há pressa nesse encontro,

porque o amor não corre,

primeiro a raiz se afunda,

depois a árvore se ergue forte.

 

Os olhos encontram olhos,

e o céu se inclina pra ver,

porque até o Criador se alegra

quando a alma reconhece a alma.

 

Sinergia é a palavra

que os sábios usam pra dizer

quando duas forças soltas

se tornam uma só correnteza.

 

O corpo dele se aproxima

do corpo dela com reverência,

porque o desejo verdadeiro

não profana, ele consagra.

 

As mãos se entrelaçam,

a respiração se confunde,

e a entrega não é perda,

é a festa de quem se encontra.

 

O prazer que ali nasce

não é vergonha nem pecado,

é prova de que os corpos

foram feitos pra alegria,

não somente pro trabalho.

 

E quando se unem por fim,

há mais que carne se tocando,

há espírito com espírito,

há duas almas se completando,

e o tempo, naquele instante,

se ajoelha sem dizer nada.

 

Bem-aventurado o homem

que encontra uma mulher assim,

bem-aventurada a mulher

que encontra um homem assim,

pois não há sob o sol,

tesouro maior que este:

 

Duas almas que se entregam,

se completam e se chamam de lar.




Diga-me, que desnudarei o teu corpo, a tua alma e os teus pensamentos.

 



Diga-me com quem tu andas, que desvelarei teus segredos,

desnudarei tua alma como quem abre um livro antigo,

revelarei o teu passado escrito em cada gesto,

escreverei nas esquinas o futuro que ainda é teu inimigo.

Pois o homem se mede pela sombra que escolhe ao lado

e a companhia revela o que o espelho nunca disse.

 

Diga-me o que lês, que direi o tamanho da tua tolice e sabedoria,

farei poesia com os teus pensamentos emprestados de outros,

revelarei as senhas que guardas sem saber que carregas,

Pois cada página que escolhes é uma confissão silenciosa.

O que devoras em segredo te devora de volta, lento,

e te torna, sem perceber, semelhante ao que admiras.

 

Diga-me o que pensas, que direi as tuas ansiedades,

o abismo que há no teu peito e que finges não ver,

a saudade que não consegues olvidar nas madrugadas,

o nome que tua boca cala mas teu silêncio sabe dizer.

Pois o pensamento é a única terra onde ninguém te vigia,

e ali, sozinho, és mais verdadeiro do que ousas parecer.

 

Diga-me o que sonhas, que direi o que falta à tua vida,

o vazio que tentas preencher com pressa e ruído,

a glória que persegues como quem persegue uma ferida,

o paraíso que inventaste pra fugir do que já viveu.

Pois sonhamos sempre aquilo que a realidade nos negou,

e no sonho mais simples mora a confissão mais nua.

 

Diga-me o que calas, que direi o que mais pesa,

a palavra engolida que virou nó na garganta,

o perdão que não deste e a dor que ainda represa,

a verdade que poupaste pra não ferir quem te encanta.

Pois o silêncio também é linguagem, e às vezes a mais honesta,

fala mais alto do que qualquer grito que a boca levanta.

 

Diga-me o que amas, que direi quem tu és de verdade,

o lugar onde repousas quando o mundo te cansa,

a pessoa por quem mudarias até a tua vontade,

a beleza que te faz parar e esquecer a pressa.

Pois amar é a única tradução exata da alma,

e o que amas sem disfarce é o teu ser verdadeiro.

 

Diga-me o que temes, que direi as portas que evitas,

o espelho que não encaras de manhã sem pressa,

a solidão que foge de ti e que tu também evitas,

o fim que adias como quem adia uma promessa.

Pois o medo é o mapa exato de tudo que valorizas,

e quem sabe temer sabe também o que de fato preza.

 

Diga-me o que esqueces, que direi o que ainda dói,

a data que tua memória apaga mas o corpo guarda,

o rosto que se foi e a ausência que não se esvai nem foi,

a infância que terminou sem aviso e sem guarda.

Pois esquecemos só aquilo que ainda não cicatrizou,

e o esquecimento no fundo é a forma mais triste de lembrar.




O Cordel do tempo, ou Não há tempo para perder tempo.

 



Não há tempo para perder tempo
O tempo nasce e morre,
E, depois renasce sem fazer ruído.
Domina os dias e as horas
Não perdoa quem anda distraído.
Quem pensar em vencer o tempo,
Já começa derrotado e vencido. 

Enquanto o mundo corre, ele não se apressa.
Caminho no seu próprio compasso. 
Retém cada minuto, cada segundo...
Ele ri e sorrir para o cansaço. 
Quem perde tempo
Acaba preso no próprio laço. 

Quem ousa lutar contra o tempo
Tão pouco avança. 
O inimigo é presa cega
Que mata toda esperança.
Não adianta correr depressa
Pois, para o tempo não há distância. 

Dizem que há tempo perdido. 
Eu pergunto: Para quem?
O verbo que conjuga o tempo
Não perde tempo para ninguém. 
Há sabedoria em observar
O que vai, o que fica e o que vaivém. 

O tolo caminha em ciclos, 
O sábio é quem sabe perceber. 
Entre o branco e o preto, há 50 tons de cinzas.
Se é que consegue compreender. 
O tempo não é somente uma estrada
O tempo é vida para quem sabe viver. 


23 de junho de 2026

Êxodo Anterior, ou Extraterrestres no planeta terra.



Não nascemos; fomos colocados,
sementes de um jardim que esquecemos o nome
em solo que não pediu por nós,
sob um céu que ainda nos estranha.

Toda fera aqui sabe seu lugar:
a garra serve à caça, o pelo serve ao frio,
a asa nasce sabendo o vento.
Só o homem chega nu, perguntando,
e por não caber em nicho algum,
inventa o mundo onde devia apenas viver.

Lavramos a terra como quem corrige um erro,
domesticamos o trigo, dobramos o boi,
porque o Éden que nos coube
não era exatamente este.

Há duzentos mil anos trazemos
o mesmo corpo, a mesma fome antiga,
e cento e noventa mil deles
ficamos imóveis, como quem aguarda
lembrar de onde caiu.

Talvez sejamos apenas isso:
uma colônia que esqueceu a nave,
um povo que confundiu exílio com origem,
e chamou de espécie
o que era na verdade,
saudade de outro céu.

E quando olhamos para as estrelas
não é curiosidade o que sentimos 
é o instinto mudo de quem reconhece,
sem provas, sem mapa, sem nome,
o caminho de casa.



Escrevo, porque minha sina é escrever para continuar existindo.




Escrevo nas paredes como quem tenta ensinar o silêncio a falar.

Escrevo nos cadernos para não me perder de mim mesmo.

Escrevo nas calçadas onde os passos apagam,

mas por um instante, vivem.

 

Escrevo no ar, ainda que ninguém veja.

porque há coisas que só existem enquanto são ditas.

Escrevo no corpo do tempo,

rasgo o agora com palavras

e deixo sangrar sentidos.

 

Escrevo porque minha sina não é viver,

é traduzir o viver.

Respiro versos como quem precisa de oxigênio,

e quando falta, sufoco em pensamentos não escritos.

 

Canto poemas aos ouvidos do invisível,

salmodio provérbios às horas vazias,

e nos paradoxos encontro abrigo

pois só o contraditório me cabe inteiro.

 

Escrevo o que sinto,

mesmo quando o sentir me escapa.

Escrevo o que penso,

mesmo quando o pensar me trai.

E escrevo sobretudo o que não compreendo

porque há mistérios que só se revelam no ato de tentar dizê-los.

 

Escrevo pelo mundo,

mas é o mundo que me escreve de volta.

Sou papel de algo maior,

sou tinta de um enigma antigo.

 

E quando tudo se cala

quando nem a dor ousa falar

ainda assim escrevo…

porque no fim escrever

é a única forma que encontrei

de continuar existindo.

 

 

 

16 de junho de 2026

O Logos e o Pathos



Há em nós dois rios que não correm juntos,

um de fogo, outro de pedra fria e clara,

e o homem que os contém sujeito a pontos

de ruptura, navega entre fogueira e ara.

 

A razão é o arquiteto que no barro

desenha a forma antes que o barro exista,

ela mede o possível, afasta o bizarro,

constrói cidades onde havia só conquista.

 

Sem ela, somos tempestade sem direção,

somos o amor que queima a própria casa,

a cólera que julga sem inquisição,

o medo que obedece antes da ameaça.

 

Mas o que vale o arquiteto sem desejo?

O que move a pedra se não há quem queira?

A razão pura é um palácio sem festejo,

geometria fria, cálculo, fronteira.

 

A emoção é o solo onde a vida acontece,

é o pulso que antecede o pensamento,

ela sente o outro antes que a mente teça

qualquer argumento, qualquer fundamento.

 

Sem ela, somos máquinas bem alinhadas,

somos a virtude que ninguém abraça,

a justiça dita por leis nunca amadas,

a verdade que corta, fere e não passa.

 

Aristóteles sabia, e por isso insistia:

a eudaimonia não mora num dos lados,

não é a frieza que o sábio exercia,

nem o êxtase de corpos dominados.

 

É o meio, esse lugar difícil de habitar,

onde a paixão obedece ao que é nobre,

onde a razão aprende a se emocionar

diante do belo, do justo, do queobre.

 

O perigo da razão é esquecer que é meio,

tornar-se fim, enrijecer em dogma,

calcular o amor como se fosse enseio

de lucro, e à crueldade dar um nome.

 

O perigo da emoção é não ter dono,

ser arrastada pela maré do instante,

confundir intensidade com o bom,

e chamar de virtude o que é somente ardente.

 

Entre o logos e o pathos, há um caminho estreito

que os gregos chamavam de caminho do meio,

não de mediocridade, mas de respeito

ao ser que pensa e sente ao mesmo tempo.

 

Somos o único animal que chora e argumenta,

que se pergunta o porquê da própria dor,

que à razão submete o que o sangue inventa

e ainda assim prefere a vida com calor.

 

Que eu nunca seja tão racional

que esqueça o nome do que me comove,

nem tão tomado pelo emocional

que perca o fio antes que a manhã me prove.

 

Que eu seja como queria o Estagirita,

um animal político e sensível,

que pensa com a alma e que a alma habita

o corpo que raciocina e é perecível.




Fogo de Dentro



Não precisa de palavra,

basta o olhar que atravessa

e já me incendeia por dentro

antes mesmo do toque começar.

É uma força sem nome,

que nasce no fundo do peito

e rompe pra fora faminta,

como maré que não tem respeito.

 

Pelo cheiro da tua pele

perco o fio do pensamento,

cada curva é um labirinto

onde me perco com tento.

O teu beijo tem química,

tem segredo, tem veneno doce,

me empurra pra borda do abismo

e eu salto porque eu quis porque coube.

 

Devorar e ser devorado,

chama que não pede licença,

a paixão não explica,

só pulsa, só arde, só começa.

Fica sempre naquele fio,

entre o que foi e o que pode,

entre o toque que ficou no ar

e o próximo que ainda não coube.



15 de junho de 2026

O Exílio Voluntário, ou a ausência que tem substância.



 

Moro num lugar que não tem endereço,

habito o silêncio entre dois olhares,

sou o estranho familiar do próprio avesso,

testemunha imóvel dos seus próprios mares.

O mundo passa com sua fome antiga,

faminta de ouro, de palco, de poder,

eu passo por ele como quem navega

numa correnteza que não quer me ter.

 

Não me pertence a pressa dos que correm

atrás de sombras com nome de conquista,

nem as amizades que só aparecem

quando a mesa está posta e a vida é vista.

Fui me exilando de mim devagar,

não por fraqueza, mas por claridade,

como quem aprende que o melhor lugar

é o silêncio honesto da própria verdade.

 

E nesse silêncio encontro o que procuro:

uma nota longa que não quer terminar,

um verso que sangra mas que ainda é puro,

e o toque de quem sabe onde tocar.

Não busco o amor que preenche calendário,

busco o amor que desnuda antes do beijo,

que chega sem aviso, sem rosário,

e toca fundo aquilo que eu desejo.

 

O sexo como oração sem catecismo,

dois corpos que rezam sem saber o nome,

a carne como templo, como abismo,

e a alma que se entrega quando some.

Estou no mundo como quem assiste,

presente mas inteiro na distância,

e o que me salva é exatamente isto:

saber que a minha ausência tem substância.




Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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