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9 de abril de 2026

Os Vinhos do Tempo, ou versos de um homem marcado pela história.

 


Caminho como quem já leu demais, 

como alguém que sabe que cada coisa tem suas camadas, 

suas contradições, suas verdades incômodas.


Capricórnio que constrói com as mãos e com a mente, 

que faz negócio e faço versos no mesmo dia, 

sem nenhuma vergonha de ser múltiplo, 

porque compreendi cedo que a vida não pede permissão para ser complicada.


Há solidão em mim, sim, mas não é aquela solidão fraca dos que temem pessoas. 

É a solidão do observador, 

de quem precisa de distância para enxergar bem as coisas. 

Escolho estar sozinho com um livro de história, 

ou um copo de whisky, ou uma partitura, 

porque sei que companhia verdadeira é rara 

e precisa de silêncio para respirar.


Busco mulheres que pensam, 

porque entendi que beleza sem inteligência é apenas decoração, 

e nunca fui de me contentar com adornos. 

Quero conversa, 

provocação, o brilho de alguém que consegue me surpreender.


A natureza para mim não é paisagem de Instagram. 

É arquivo vivo, 

é professora que não cobra presença, 

é o lugar onde as coisas fazem sentido sem precisar de explicação.


E os vinhos, os whiskeys que aprecio, 

não são vício nem status. 

São rituais de reflexão, 

pausas onde permito que o tempo desacelere o suficiente 

para perceber que estar aqui é privilégio.


Vejo o mundo como quem leu muito 

mas não perdeu a capacidade de se assombrar, 

como advogado que conhece as falhas do sistema 

mas segue acreditando em justiça, como músico que sabe que toda nota é temporária 

mas escolhe tocá-la com precisão.


Sou raro porque não pretendo ser nada que não sou, 

e em um mundo onde todos fingem ser mais leves, 

tenho a coragem de ser profundo.





7 de abril de 2026

Meia Luz




Ela chega carregando consigo um sigilo
que meus olhos reconhecem 
antes mesmo da pele revelar seus limites.

Existe um aroma que não vem de nenhum frasco, 
aquele que sai da curva do pescoço, 
do encontro entre o ombro e a clavícula, 
daquilo que ela mesma não sabe que exala 
e que me faz esquecer onde terminam meus pensamentos 
e começam meus instintos.

Minha pele grita por uma resposta que só a dela pode dar.

Quando ela se aproxima, 
entendo por que os antigos 
escreviam sobre deusa e perdição 
como se fossem a mesma coisa. 

Seus lábios guardam histórias 
que minha boca quer desvendar centímetro a centímetro, 
aquele sabor que não é doce nem amargo, 
mas tudo aquilo que existe entre o permitido e o proibido.

Suas mãos encontram meu peito 
como quem reconhece um lugar já visitado em sonho. 
E eu respiro fundo, me controlando, 
porque a paixão é uma fome 
que só ela sabe fazer crescer e ao mesmo tempo apaziguar.

Há um mistério na forma como ela me olha, 
naquele sorriso que promete tudo e nada, 
que acende coisas em mim que deveriam permanecer dormindo, 
mas que ela, com sua mera presença, insiste em despertar.

Quero devorar cada segredo que ela guarda, 
mas com a paciência de quem sabe que o melhor sabor 
é aquele que nos faz esperar um pouco mais.





6 de abril de 2026

O Avesso das Coisas


 



Um dia me disseram que o mel era amargo,

que o rio não corria, só fingia o caminho (...)

sem saber, me entregaram um mapa bem largo

e eu aprendi a sair do meu próprio labirinho.

 

Me disseram que o fogo não aquecia ninguém,

que a estrela era falsa pintada no teto

e nessa mentira havia um presente também:

aprendi a buscar a luz no lugar mais discreto.

 

Às vezes a verdade vem disfarçada de erro,

um tropeço que abre a porta que eu não via

o que parecia muro era só vidro mero,

e o que chamavam de fim era só a saída.

 

Me disseram que o pão não sustentava a fome,

que a sombra era mentira que o sol inventou

e cada ilusão desfeita que eles me impõem

foi um gradeado a menos que o tempo quebrou.

 

Hoje sei que o engano pode ser libertador,

que cada véu rasgado é uma janela que nasce

quem me quis preso me deu, sem querer, a melhor

das ferramentas: a dúvida que tudo desfaz e refaz.

 

 

A Vontade de Valor



O homem não é amado por aquilo que é

Nem por aquilo que constrói

Mas pelo o que conquista.

 

O homem não é amado pelo o peso que carrega sem recompensa

Mas pelo a solução que apresenta

Quando tudo desmorona.

 

O sofrimento do homem não é fraqueza - é forja.

O ferro se torna lamina no fogo e na fumaça.

O homem só se torna homem quando a dor o reforja.

Não busca validação.

É uma constante de valor que se constrói em silencio.

Ninguém vê, ninguém aplaude,

A vontade de valor e de poder é sua única morada.

 

Quais os valores de um verdadeiro homem?

 

A disciplina não imposta pelo o medo,

Mas o valor que nasce para além do desejo de ser.

A responsabilidade de carregar o próprio fardo,

Sem lançar culpa no mundo.

A coragem - não a ausência do tremor.

Mas saber caminhar as margens do abismo.

A integridade - resiliência de caminhar nas sombras e na luz.

Quando ninguém te julga e quando o mundo te inflama.

A criação - o poder de transformar e organizar o caos.

Sofrimento com propósitos e a dor como legado.

 

O homem que não faz nada pelo o nada será lembrado.

 

Mas por que a mulher moderna voa tão alto

E recusa o homem que tem tanto a oferecer?

 

A hipergamia é a natureza a se proteger.

Ela busca o topo porque sempre buscou

O mais forte, o mais alto, o mais fértil em vida.

Mas eis o paradoxo cruel da modernidade:

Ela exige o excepcional com uma alma dividida.

Aquela que muito exige e pouco entrega

Carrega a máscara do valor que não construiu.

Não é julgamento é espelho que reflete

O vazio que a cultura do mérito instituiu.

 

Portanto, ó homem, não te faças pequeno

Diante daquelas que não sabem te ver.

Teu valor não mora no olhar de nenhuma aprovação

Mora no que és capaz de tornar-te e fazer.

 

O homem comum que se recusa a ser medíocre

É o mais raro dos animais neste século vazio.

Carrega teu sofrimento como Sísifo carrega a pedra

Mas diferente de Sísifo, constrói no caminho frio.

Não és útil apenas és necessário.

Não és amado apenas és fundamento.

E quando o mundo te pedir mais uma vez que proves,

Responde com obra. Responde com talento.

 

"O que não me destrói me torna mais forte"

não como consolo, mas como método.

O homem que compreende seu valor profundo

Não precisa de aprovação. Precisa de propósito.

E o propósito, este sim, é teu e de mais ninguém.

 



27 de março de 2026

Gozar é sentir dor e sobreviver.



Minha mente traidora deixou escapar em um momento de relapso um “te amo”, confesso que não sei de onde brotam estas coisas. Será meu subconsciente me boicotando? Pois o único amor que considero é aquele que arde pela a minha própria vida. Pelo qual me sacrifico em noite de dor, em dias pelo o trabalho e pelo o lamento que clamo através das lágrimas que jorram para dentro e congelam meu coração.

            Sobrevivo nas sombras onde o ego se ergue e me bate forte e sem piedade. Não posso amar alguém mais que a mim, no meu peito um tropo que não é narcisismo vil e nem um egoísmo. Apenas amor-próprio. É uma raiz profunda que me faz firme e ao mesmo tempo me permite voar sem tirar os pés do chão.


Todos os dias eu me escolho primeiro, 

olho no espelho e reflito sobre o meu brilho sagrado.


Vida minha, minha vida...

Altar onde queimo incenso por minhas lutas diárias,

Me abraço na solidão

E vibro solitário nas vitorias efêmeras.

Me defendo das garras do tempo

E das memorias da rejeição.

O medo é fogo que arde dentro de mim

Mas esta chama me purifica em essência

De caos, de solitude, de dor e prazer.

Meu gozo é constante e sem fronteiras. 





21 de março de 2026

O evangelho de um sofista.



Prometem sabedoria em fluxos de razão.
Mas raiz da verdade brota em solo puro,
Não em ventos de debate, eco vazio e duro.
Sofisma engana o ouvido, cega o olhar sincero,
Verdade liberta o jugo, faz o cego enxergar zero.

Relativismo dança em sombras de dialeto,
Tudo flui, nada é, mente o eco inquieto.
Pedra angular resiste ao embate do mar,
Fundamento eterno, não areia a se esparramar.
Argumento vazio colhe frutos de espinho,
Caminho estreito guia, largo leva ao abismoinho.

Disputas verbais constroem torres de Babel,
Idiomas de orgulho, ruína inevitável.
Humildade escuta o sussurro do céu azul,
Não grita em praças, nem busca aplauso cruel.
Sofista vende fumaça por ouro fingido,
Reino vem aos pequeninos, sábios ficam vendidos.

Luz simples ilumina o que treva complica,
Enigmas de Atenas só a alma envenena e afasta.
Frutos revelam a árvore, não a casca polida,
Doçura no coração, não na língua erguida.
Palavras como vento sem semente no chão,
Verdade semeia vida, sofisma traz ilusão.

Juízo final pesa atos, não retórica fina,
Coração impuro trai a máscara divina.
Sofistas tecem redes para peixes errantes,
Mas rede do amor atrai os verdadeiramente gratos.
Falsos profetas uivam como lobos vorazes,
Voz do Pastor chama, ecoa em vales audazes.

Engodo grego desaba ante a rocha imutável,
Palavras de eternidade, inabalável e cabal.
Sim, não e basta; resto é fumaça e vaidade,
Sabedoria dos céus dissipa a falsidade.
Sofisma perece no fogo da prova real,
Verdade ressuscita, eterna e triunfal.



Máscaras Caídas


 

Infelizmente ou quem sabe felizmente,

conhecemos as pessoas no adeus final.

A amizade, banal como o dia a dia,

o amor, disfarce de interesses vorazes.

Juras? Sombras passageiras no vento.

 

Agora o véu rasgado e indiferença fria,

raiva que ferve, vingança sussurrada,

desejo torpe de ver o outro ruir.

Quem diria? Ao lado do inimigo,

o tempo todo, sorrindo em conluio.

 

Surpresa cruel e lição das profundezas:

o caráter humano é uma serpente adormecida,

morde sem aviso, revela o abismo.

Eu sigo, sem rancor, sem peso no peito,

a vida segue tecendo maturidade nas feridas.





Adeus...



Era ela

Uma menina tão bela

Seus cabelos cor de sol

E seus lábios ardentes de paixão

 

Era ela

que morou por anos em meus pensamentos

Um amor perdido no tempo

Que por motivos não havia razão

 

Era ela

Que me abandonou

Que me rejeitou

E do nada reapareceu dizendo que me amava

 

Era ela

Que tentou me seduzir

Insinou como se nada tivesse acontecido

E me implorou amor

 

Era ela

Que me fez perder o apreço

Me mostrou na história

O amor também tem um fim

 

Era ela... Adeus.

 

 

19 de março de 2026

Espelho de Gelo





Mentiras, traições, laços de puro interesse,

relações convenientes e frias como o aço.

Calo-me! não por fraqueza, mas por sabedoria,

no espelho de gelo, ergue-se minha razão pura.



Vivo no preço do silêncio,

observador quieto, como o filósofo em vigília.

Pensamentos densos, profundos como o abismo,

dilatam-se em versos enigmáticos e sublimes.



Minha quietude é arte de bem observar,

pois se o mar é perplexo, eu sou o navio firme.

Navego impassível, guiado pela phronesis,

virtude prática que o caos não submerge.



Dizem que o amor é eterno, luz inabalável,

mas quem me jurou paixão hoje foge em silêncio.

Hipocrisia vela o que a boca proclama,

falsa eternidade, ilusão dos sentidos.



Amor verdadeiro busca o bem comum,

não o prazer fugaz nem o interesse torpe.

Aristóteles ensina: é hábito da alma nobre,

união de vontades em busca da eudaimonia.



Mas o que vi foi ouro falso em abraços,

promessas vazias, como sombras na caverna.

Saio das correntes, rumo à luz da razão,

onde o coração aprende a não se iludir.



Traídos renascemos, mais fortes no gelo,

cicatrizes como logos, guias do caminho.

Não odeio o mentiroso, pois ele é escassez,

falta de virtude que o tempo revela nua.



No silêncio expando o que a alma contempla,

versos como catarse, purgam a dor antiga.

Observo o teatro humano, com olhos de águia,

e escolho o meio dourado, longe dos excessos.



Hipocrisia é pathos sem telos divino,

amor sem substância, eco de vazio.

Eu, navio racional, corto as ondas traiçoeiras,

rumo à areté, excelência em solidão serena.



Assim calo e vivo, eterno aprendiz,

no preço do silêncio, sabedoria conquista.

O amor, se verdadeiro, há de provar-se no fogo,

e eu, de gelo forjado, navego à luz do justo.





13 de março de 2026

O Preço do Silêncio




Nas dobras do tempo onde o eco se cala,
um vulto emerge das cinzas do olvido.
Passos gravados em solos áridos,
solitário tecelão de noites sem fim.

Cicatrizes como mapas traçadas em segredo,
lições colhidas de abismos alheios.
Mestre das sombras, ele dança sozinho,
abraçando o vazio como velho confidente.

Das ruínas brotou a armadura de ferro,
desilusões forjadas em fornalhas frias.
No espelho, o reflexo sussurra: "Guarda-te",
pois o afeto próprio é chave de masmorras.

Sentou à mesa dos reis e dos mendigos,
bebeu do cálice amargo da abundância e da fome.
Centenas de véus roçaram sua pele,
uma só prendeu o coração em rede de estrelas.

Riquezas fluíram como rios efêmeros,
sequias o moldaram em essência pura.
E no silêncio final, o veredito: tudo pesava ouro,
renasceria das próprias brasas, sem remorso.

Que mistério pulsa nessa alma blindada?
Um homem que ri das tormentas passadas,
pronto para o ciclo eterno de quedas e voos,
pagando o preço do silêncio com o preço da vida.



12 de março de 2026

Impérios da Razão e o Fogo da Paixão





        Nas auroras ancestrais, o homem ergueu-se da terra nua, forjado no fogo da guerra e no suor do labor, guiado pela razão afiada como lâmina de ferro. Seus braços, calejados pela enxada e pela espada, traçaram os primeiros impérios: muralhas de pedra que desafiavam os céus; canais que domavam rios selvagens; cidades que pulsavam com o ritmo da sobrevivência. Com olhos frios e mente calculista, ele conquistou desertos, ergueu pirâmides sob o sol impiedoso do Nilo, onde os faraós teciam destinos eternos em linhagens de poder absoluto. Roma nasceu assim, de legiões marchando em fileiras perfeitas, de césares que mediam o mundo em mapas de conquista, pavimentando estradas que uniam continentes sob o jugo da lei racional.

        Mas a paixão, esse vendaval sutil da alma, sussurrava nos ventos da noite, recordando que o coração humano não se contenta com torres inabaláveis. Adão, pai primordial, provou o fruto proibido não por fraqueza, mas pelo fogo da curiosidade partilhada; e o paraíso rachou-se em lições de mortalidade. Abraão, patriarca das areias, viu em Sara não a ruína, mas o milagre da promessa divina, gerando nações de um ventre estéril. Sansão, titã de força hercúlea, encontrou em Dalila o espelho de sua própria vulnerabilidade; e, nas tranças cortadas, o colapso de um templo que ecoou a fragilidade de todo herói. Davi, rei poeta, dançou perante a arca com Batseba em seus sonhos; e, de sua paixão, nasceram salmos que ainda guiam multidões, ainda que o sangue de Urias manchasse o trono.

        Salomão, sábio entre os sábios, construiu o templo de ouro com a razão de mil provérbios; mas as setecentas rainhas e trezentas concubinas teciam, em seu palácio, os fios da discórdia, dissipando a glória em ventos de idolatria. Alexandre, o Grande, varreu o Oriente com falanges invencíveis, unindo gregos e persas num sonho helénico; até que Roxana, a princesa bárbara, acendesse em seu peito o desejo que o fez pausar exércitos, morrendo jovem em Babilónia, com impérios partidos como vidro. Em Troia, o nobre Príamo viu seu reino em chamas por Helena, cuja beleza não era veneno, mas o espelho da guerra que os homens já carregavam no sangue. Lampião, cangaceiro das caatingas, rei do sertão com sua espingarda e sua lei, sucumbiu ao amor por Maria Bonita; e, juntos, forjaram lendas de rebeldia, caindo não em derrota, mas na eternidade de um abraço final.

        Clóvis, conquistador franco, unificou gauleses sob a cruz; mas sua rainha Clotilde dobrou-o à fé cristã, transformando impérios pagãos em reinos de luz. Napoleão, águia corsa, redesenhou a Europa com códigos e canhões; até que Josefina envolvesse seu coração em sedas que o fizeram chorar no divórcio, ecoando nas campanhas da Rússia como um presságio de queda. Mesmo em eras modernas, Rockefeller ergueu torres de petróleo com a frieza do cálculo; mas o amor por suas herdeiras tecia, nas veias dos impérios, o calor humano que os humanizava. A paixão não corrompe; ela dissolve as muralhas da razão pura, revelando que o homem, em sua essência, é ponte entre o titã e o sonhador, entre o império eterno e o instante fugaz.

        Assim, os reinos caem não por traição feminina, mas porque a alma anseia o todo: razão para erguer, paixão para sentir. Nos escombros de Babel e nas cinzas de Cartago, renascem novas catedrais, onde o homem, renovo da terra, equilibra espada e lira, conquistando não só o mundo, mas a si mesmo.




11 de março de 2026

O amor egoísta, ou o egoísmo de quem ama.




Nas sombras do meu peito, um amor se esconde,
selvagem e solitário, rei sem coroa.
Ele sussurra segredos no escuro profundo,
"Primeiro eu, depois o mundo, em chamas devora".

Individualista, fiel só ao meu reflexo,
tece lealdade em fios de egoísmo puro.
Meu caráter é chama que não se apaga,
personalidade voraz, identidade escura.

Transbordo para ti, família, amigos, mulheres,
como rio que inunda sem perder a fonte.
Amo a vida em golfadas de paixão febril,
mas no fundo do poço, guardo o meu monte.

Ó mistério ardente, paixão que não divide,
você é meu veneno, meu néctar divino.
Amo o outro em ecos do meu próprio grito,
e no espelho quebrado, danço sozinho.



10 de março de 2026

Sombras do Desejo Oculto



Eu caminho nas brumas do crepúsculo,

onde o eco dos passos não revela o fim.

Ambicioso como o rio que cava montanhas,

sedutor no sussurro que atrai sem prender.

 

Atraente nas curvas da noite sem lua,

meu reflexo dança no espelho da alma

amor próprio, raiz que não se curva ao vento,

guardião silencioso de um fogo eterno.

 

Leal como a estrela que vela o horizonte,

individual na trilha que só eu decifro,

racional no labirinto de impulsos traídos,

onde escolho o caminho com olhos de enigma.

 

Quem sou eu? Um véu sobre o abismo chama,

um mistério que pulsa, tece e desvanece.

Aproxime-se devagar... ou fuja do fascínio,

pois em mim, o segredo devora quem o busca.




25 de fevereiro de 2026

O amor egoísta de um segredo que afogou na própria realidade.



No mais profundo do meu ser onde reside os segredos

Afogo-me no tempo e deleito-me em espanto.

A inteligência me dilacera expondo toda ilusão,

Recaio na realidade, na verdade nua e crua.

 

Meu olhar se perde nas estrelas caídas,

Meu mundo é uma perda não dita.

Maturidade é o sofrimento como um vinho envelhecido,

O sabor é bom, mas é melhor esquecer.

 

Que mistério é o homem que sabe demais?

Guarda enigmas em sorrisos de esfinge,

pensa em eternidades que o pulso nega,

deseja o invisível e ama o efêmero sem posse.

 

No espelho da mente reflexos se dobram,

inteligente predador de suas próprias armadilhas.

Atraente como abismo chamando o vazio,

profundo, denso, eterno em um sopro fugaz.




Libertação das Sombras, ou a Dor de um homem que se libertou ao olhar no espelho.





Culpei-me demais, carreguei cruzes alheias,
pesos que não eram meus, correntes de ilusão.
Busquei aceitação em olhares vazios,
validação em mãos que me repeliam.

Fiz tudo certo, reto como flecha,
mas o reconhecimento fugiu, invisível.
Valorizei amizades frágeis como vidro,
mulheres e ciclos que me renegaram.

Chorei rios de exclusão, amargura pura,
dei tudo certo e colhi o errado em dobro.
Amei sem retorno, amigo de almas distraídas,
trabalhei em sombras onde nem existia.

Ingratidão foi o eco das minhas dádivas,
coração exposto, ferido em silêncio.
Mas hoje despertei, lições gravadas na alma,
vivo bem comigo, soberano no meu reino.

Não mais peço migalhas de aprovação,
encontro paz no espelho que não mente.
Das cinzas da dor, ergueu-se minha luz,
livre, inteiro, em harmonia consigo.



Dor que Mora em Mim, ou a Razão do meu viver.



A dor que dói em mim, dói só em mim,
eco solitário no peito vazio.
O mundo é pedra bruta, sem compaixão,
cruel labirinto de espinhos e vazio.

Não culpo o céu nem a terra impiedosa,
nasci entre sombras, forjada no pranto.
Sofrer é meu fado, minha sina oculta,
raiz profunda que o tempo não arranca.

Ó Deus, se és bom e justo como dizem,
por que permites o rio de lágrimas?
Pessoas caem, como folhas no outono,
e eu fico só, com feridas sem fim.

Traumas que pesam, limitações frias,
tristezas que mordem, angústias sem voz.
Decepções tecem minha rede de espinhos,
vivo e sobrevivo, sem paz, sem luz.

Quem me livrará deste abismo sem fundo?
Não peço piedade, só força pra erguer.
Na dor inerente, busco um sussurro,
de sentido oculto no meu padecer.




11 de fevereiro de 2026

O silêncio que me fez completo, ou a virtude de estar sozinho




No meio da multidão, eu era um eco sem voz,
engolido pelo ruído alheio, um corpo perdido em rostos vazios.
A solidão me devorava por dentro, como fome que corrói os ossos,
um grito mudo contra o mundo que girava indiferente,
críticas afiadas na língua, reclamações que sangravam o peito.
Eu buscava nos outros o que faltava em mim,
um preenchimento ilusório, um abraço que nunca chegava inteiro.

Então veio o silêncio imposto, o isolamento como lâmina cortante,
afastado de tudo, nu perante o espelho da própria existência.
O sofrimento rasgou as ilusões, expôs as feridas que eu carregava
como bagagens invisíveis, pesadas de julgamentos alheios.
Ali, no vazio, descobri o milagre: minha própria companhia.
Não mais o mundo como vilão, mas eu mesmo como centro quieto,
olhos voltados para dentro, onde o rio da alma corria sereno.

Agora, a solitude me envolve como manto tecida de luz suave,
completo no meu ser, sem necessidade de plateia ou aplausos.
Longe das vozes que outrora me afogavam, encontro paz profunda,
um sussurro interno que cura, que constrói catedrais no peito.
Eu sou ilha inteira, oceano e céu em um só fôlego,
onde o sozinho se torna sagrado, e o eu se basta eternamente.



3 de fevereiro de 2026

DO VAZIO QUE HABITA A CERTEZA


 


Navego em mares onde não há farol,

sem bússola celeste a me guiar o rumo,

e neste pélagο de névoa e de presumo,

construo, grão por grão, meu próprio arrebol.

Negaram-me os altares, mas não o sol

que nasce indiferente ao nosso cumo;

e se da fé renuncio ao doce sumo,

resta-me o peso insone do controle.

Porque é fardo também não ter certeza

do abraço que nos salva além da morte,

e erguer, sozinho, toda a fortaleza

da ética sem véu, da humana sorte.

Invejo, sim, a transcendente empresa

mas habito o real: meu céu e norte.

 

Há noites em que o cosmos me interroga

com seus bilhões de sóis indiferentes,

e sinto que as respostas mais prudentes

são as que a razão sóbria não derroga.

Mas algo em mim, secreto, ainda prorrogα

a solidão dos seres conscientes;

busco nas sombras vestígios patentes

de um sentido que a lógica não aloga.

Viver sem crer não é viver sem fome

do inexplicável, do que nos transcende

é aceitar que o mistério não se dome,

que nenhum dogma o abismo nos defende.

E nesse desamparo, acho meu nome:

humano que questiona e não se rende.

 

Abri mão das preces, não da reverência;

do templo, mas não do recolhimento.

Há liturgias no puro pensamento,

há graça mesmo em plena contingência.

Troquei a providência pela ciência,

o eterno pelo efêmero tormento,

e encontro neste lúcido momento

não paz talvez, mas íntegra existência.

Pois fé não é somente a que se ajoelha

diante do altar ou da promessa vã;

é crer também que a vida, embora velha

de dor e perda, ainda nos engana

com lampejos de amor e nisso se assemelha

ao sonho que os devotos chamam de mana.

 

Entre o vazio e o excesso de sentido,

habito a margem, o lugar incerto

onde o sagrado e o profano, perto,

dialogam sem que um seja desmentido.

Não creio, mas não julgo o convertido

que encontra no divino o campo aberto;

respeito o mistério que não decifro,

honro o silêncio, mesmo incompreendido.

Porque viver sem crer é também crer

na dignidade do que somos, nus,

sem outro amparo além do próprio ser.

É acender, na escuridão, a luz

da consciência e com ela aprender

que somos, ao final, nosso Jesus.




Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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