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19 de março de 2026

Espelho de Gelo





Mentiras, traições, laços de puro interesse,

relações convenientes e frias como o aço.

Calo-me! não por fraqueza, mas por sabedoria,

no espelho de gelo, ergue-se minha razão pura.



Vivo no preço do silêncio,

observador quieto, como o filósofo em vigília.

Pensamentos densos, profundos como o abismo,

dilatam-se em versos enigmáticos e sublimes.



Minha quietude é arte de bem observar,

pois se o mar é perplexo, eu sou o navio firme.

Navego impassível, guiado pela phronesis,

virtude prática que o caos não submerge.



Dizem que o amor é eterno, luz inabalável,

mas quem me jurou paixão hoje foge em silêncio.

Hipocrisia vela o que a boca proclama,

falsa eternidade, ilusão dos sentidos.



Amor verdadeiro busca o bem comum,

não o prazer fugaz nem o interesse torpe.

Aristóteles ensina: é hábito da alma nobre,

união de vontades em busca da eudaimonia.



Mas o que vi foi ouro falso em abraços,

promessas vazias, como sombras na caverna.

Saio das correntes, rumo à luz da razão,

onde o coração aprende a não se iludir.



Traídos renascemos, mais fortes no gelo,

cicatrizes como logos, guias do caminho.

Não odeio o mentiroso, pois ele é escassez,

falta de virtude que o tempo revela nua.



No silêncio expando o que a alma contempla,

versos como catarse, purgam a dor antiga.

Observo o teatro humano, com olhos de águia,

e escolho o meio dourado, longe dos excessos.



Hipocrisia é pathos sem telos divino,

amor sem substância, eco de vazio.

Eu, navio racional, corto as ondas traiçoeiras,

rumo à areté, excelência em solidão serena.



Assim calo e vivo, eterno aprendiz,

no preço do silêncio, sabedoria conquista.

O amor, se verdadeiro, há de provar-se no fogo,

e eu, de gelo forjado, navego à luz do justo.





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