Mentiras, traições, laços de puro interesse,
relações convenientes e frias como o aço.
Calo-me! não por fraqueza, mas por sabedoria,
no espelho de gelo, ergue-se minha razão pura.
Vivo no preço do silêncio,
observador quieto, como o filósofo em vigília.
Pensamentos densos, profundos como o abismo,
dilatam-se em versos enigmáticos e sublimes.
Minha quietude é arte de bem observar,
pois se o mar é perplexo, eu sou o navio firme.
Navego impassível, guiado pela phronesis,
virtude prática que o caos não submerge.
Dizem que o amor é eterno, luz inabalável,
mas quem me jurou paixão hoje foge em silêncio.
Hipocrisia vela o que a boca proclama,
falsa eternidade, ilusão dos sentidos.
Amor verdadeiro busca o bem comum,
não o prazer fugaz nem o interesse torpe.
Aristóteles ensina: é hábito da alma nobre,
união de vontades em busca da eudaimonia.
Mas o que vi foi ouro falso em abraços,
promessas vazias, como sombras na caverna.
Saio das correntes, rumo à luz da razão,
onde o coração aprende a não se iludir.
Traídos renascemos, mais fortes no gelo,
cicatrizes como logos, guias do caminho.
Não odeio o mentiroso, pois ele é escassez,
falta de virtude que o tempo revela nua.
No silêncio expando o que a alma contempla,
versos como catarse, purgam a dor antiga.
Observo o teatro humano, com olhos de águia,
e escolho o meio dourado, longe dos excessos.
Hipocrisia é pathos sem telos divino,
amor sem substância, eco de vazio.
Eu, navio racional, corto as ondas traiçoeiras,
rumo à areté, excelência em solidão serena.
Assim calo e vivo, eterno aprendiz,
no preço do silêncio, sabedoria conquista.
O amor, se verdadeiro, há de provar-se no fogo,
e eu, de gelo forjado, navego à luz do justo.

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