A mesa posta do afeto, sentam-se dois estranhos
Que um dia se amaram e foram apenas um.
Ele tentando reconhecer a mulher que um dia amou
E Ela observando um estranho como nunca o tivesse visto.
Um narcisista e outro egocêntrico sentados frente a frente,
Afogados entre o rancor e a ingratidão.
Repetindo palavras alheias
Expondo feridas que nunca foram curadas.
Uma contabilidade jurídica afetiva que não fecha,
Onde cada beijo é uma moeda e cada abraço um desagravo.
Nos olhares apenas ressentimento com reflexos de dores
E imagens de um passado que nunca foi superado e ressignificado.
Palavras vazias ecoam no abismo da desilusão
Pelo o espelhamento psicológico de um amor doente.
As línguas prontas para destilar o veneno
Que derrama para dentro do coração.
Cada um projeta no outro o carrasco e a vítima,
o salvador e o náufrago, o algoz e o inocente,
numa dança de máscaras que se tornou rotina.
Até que o espelho racha refletindo imagens despedaçadas pelos cacos.
Resta a pergunta que nenhum dos dois ousa fazer:
Quem é o ingrato, aquele que não agradece
ou aquele que dá esperando receber,
mantendo o livro-caixa do amor que perece?
Na Academia das Dores Compartilhadas,
onde se estuda a anatomia dos afetos despedaçados,
fica a lição escrita em versos e em lágrimas guardadas:
amor não é espelho; é janela para o outro lado.
