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9 de junho de 2026

Odisséia Interior: Noturno da Humidade Humana e da Desumanidade que a Solitude Semina nas Ruas do Eu.



No sopro raro da rua onde a noite penteia o silêncio,

a humanidade caminha em peles de papel, dobradas em esquinas.

Há no peito um mapa de cidades desabitadas,

ruínas de conversas que o tempo deixou sem verbos.

O mundo, ao longe, é um navio aceso em faróis incertos;

os olhos procuram outros olhos e encontram somente espelhos.

 

Solitude, artífice de um templo sem portas, ergue altares de ausência.

Lá dentro, o coração aprende a falar com a sua própria sombra

acontece um colo que não se dá e uma ternura que se recolhe.

É ciência e sacrilégio: medir o próprio vazio, catalogar memórias

como se fossem fósseis de afetos, numerar as estações do abandono.

A desumanidade não vem em punho cerrado; vem discreta, em gestos esquecidos,

no cafezinho que não se oferece, no abraço que vira hábito de escusa.

 

Mas há um encontro; não com outro, mas com o próprio fundo

onde o eu, exausto de espelhos, aprende a decifrar o seu idioma antigo.

Surge uma cartografia de sentidos: as dores se nomeiam, as culpas perdem a máscara.

Nesse encontro, o distanciamento do mundo é simultaneamente cárcere e liberdade.

Cárcere, porque a janela se torna verso que não se abre;

liberdade, porque o verso aprende a ser ilha e ponte.

 

Eis a contradição: ser inteiro na deserção.

Quando o homem se reconhece, reconhece também o abismo que o cerca.

A alma, como eremita que cultiva estrelas, torna-se jardineira de silêncio,

plantando com mãos trêmulas pequenos milagres de compaixão.

A linguagem se transmuta; o falar se faz quase rito, o ouvir se faz liturgia.

No recuo deliberado, descobre-se a filigrana do mundo:

os gestos mínimos que sustentam civilizações; um sorriso, um pedaço de pão, uma carta.

 

Mas sob a luz de velas que sobe das cidades interiores, há mistério:

o que se salvou do humano quando a solitude depurou as palavras?

Restou a ternura recusada, restaram os ritos domésticos do coração,

restou o espanto de ver-se inteiro e, ao mesmo tempo, estrangeiro.

A desumanidade, então, revela-se menos fera que espectro:

assombra mais por omissão do que por violência; corrói mais por silêncio do que por aço.

 

No crepúsculo desta história íntima, a esperança é uma ciência frágil.

Aprendemos que o encontro consigo mesmo não suplanta o encontro com o outro,

mas o habilita: só quem venceu a própria noite pode prestar companhia à aurora.

E assim caminhamos, com bolsos cheios de perguntas, na ribanceira entre dois mundos

o do afeto que se oferta e o do medo que se recolhe, tentando traduzir o mistério

numa gramática antiga de ternura e justiça.

 

Que a humanidade, enfim, saiba que o espelho não é prisão,

e que a solitude, quando domesticada, é oficina de compaixão.

Que a desumanidade seja nomeada e desarmada pela palavra partilhada.

E que cada encontro, mesmo o mais contido, reverbere como sinfonia:

um chamado, uma resposta, um retorno quem somos, quem fomos e quem podemos ser.




20 de junho de 2025

Um Homem Só no Meio da Multidão, ou A Poesia da Solitude em Belo Horizonte.



Na metrópole viva de Belo Horizonte,
onde o concreto pulsa e o asfalto sonha,
um homem caminha entre bares e sinos,
ouvindo o silêncio no meio do som.

Milhões de rostos cruzam sua sombra,
milhares de vozes giram ao redor,
mas ele, inteiro, sente-se à parte,
não por tristeza, mas por amor.

Os bares transbordam risos ensaiados,
as igrejas elevam preces vazias,
as ruas gritam pressa, metas, metas…
e ele apenas respira, sem correria.

Durante o dia, vê olhos cegos,
focados em listas, planilhas, relógios.
À noite, os corpos dançam sozinhos,
disfarçando ausências com seus adereços.

Nas redes, as máscaras brilham mais
que os rostos por trás dos filtros.
As fotos mentem a alegria forjada,
mas ele já não compra mais sorrisos.

Foi então que abraçou sua própria ausência,
descobriu na solidão a doce morada.
A solitude; flor rara entre espinhos
tornou-se seu lar, sua estrada.

Fez da própria companhia um templo,
do silêncio, um diálogo profundo.
E ali, sem distrações nem vícios,
encontrou o universo em um segundo.

Viajou por dentro e por fora,
descobriu montanhas e cafés
onde sentar-se só era liberdade
e não sentença de ninguém.

Quando com amigos, é inteiro,
brinda o instante com coração aceso.
Mas quando a multidão o engole,
ele sorri; não está indefeso.

Pois aprendeu o que poucos sabem:
a felicidade não mora nas vitrines,
não depende de beijos, nem curtidas,
mas brota onde o espírito se afine.

Um homem só entre milhões,
e ainda assim, tão pleno, tão vasto.
Não espera que o mundo o preencha
ele mesmo se tornou o espaço.

Assim vive em BH, entre igreja e boteco,
entre morros, buzinas e promessas,
sabendo que a alma que se conhece
jamais se afoga nas pressas.

Não é amargura, é liberdade.
Não é desprezo, é maturidade.
É ter descoberto o sagrado segredo:
estar só... e não sentir saudade.

 


Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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