Na arte de observar me retiro propositalmente
não por ausência, mas por escolha.
Sou margem que enxerga o rio,
olho quieto que aprende com o ruído.
Não me interessa o que dizem alto,
mas o que escapa nas pausas,
no tremor quase invisível da voz,
na pressa de quem precisa parecer inteiro.
Há quem vista personagens
como quem troca de roupa:
um ideal costurado em desejo,
um reflexo do que falta por dentro.
Outros tropeçam na própria incoerência,
não por maldade; mas por distração,
como se vivessem fragmentados,
sem jamais se encontrarem por inteiro.
E há ainda os que sabem...
mas fingem não saber.
Arquitetos da própria contradição,
erguendo máscaras com plena consciencia.
Entre gesto e palavra,
sempre escolho o intervalo;
é ali que mora a verdade
que ninguém ensaia.
Eu observo...
Porque o que somos
não grita.
Escorre.
E eu em silencio - recolho-me.
