PARTE I
Silêncio que não pesa,
mas envolve.
Espaço vazio que não falta,
mas transborda.
Presença que nasce no recolhimento,
sem ruído, sem plateia,
sem máscaras a sustentar.
Multidão lá fora: vozes, pressa, olhares que atravessam sem ver.
Dentro, vastidão inteira, sem eco de ausência.
Solidão que antes feria,
agora revela.
Lapida o ser,
desnuda camadas,
expõe essência sem adornos.
Nenhuma cobrança,
nenhum papel a cumprir.
Apenas existência crua,
Inteira e suficiente.
Solitude: não fuga,
mas encontro.
Não carência,
mas completude.
E no centro do silêncio, plenitude!
PARTE II
No silêncio anterior ao mundo,
o ser se recolhe sem ruído.
A ausência de vozes externas
não empobrece; revela.
Há um centro oculto
onde a falta deixa de ser falta
e a presença torna-se inteira.
Ali, o vazio não consome:
alinha.
No meio da multidão,
tantas faces, tanta pressa,
e ainda assim o exílio íntimo
pode permanecer intacto.
Pois não basta estar cercado de corpos
quando a alma permanece distante
de si mesma.
Melhor a travessia solitária
do que a companhia que exige disfarce,
a palavra que cobra,
o gesto que fere,
o olhar que mede,
a espera que oprime.
Na solitude, o eu se desvela
sem a vigilância do julgamento.
Cai a armadura.
Some a encenação.
Resta a verdade nua,
e nela habita uma paz estranha,
profunda, suficiente.
Solidão já não é ruína.
É morada.
É órbita silenciosa
em torno do próprio eixo.
É o instante em que existir
basta por inteiro.