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21 de março de 2026

Adeus...



Era ela

Uma menina tão bela

Seus cabelos cor de sol

E seus lábios ardentes de paixão

 

Era ela

que morou por anos em meus pensamentos

Um amor perdido no tempo

Que por motivos não havia razão

 

Era ela

Que me abandonou

Que me rejeitou

E do nada reapareceu dizendo que me amava

 

Era ela

Que tentou me seduzir

Insinou como se nada tivesse acontecido

E me implorou amor

 

Era ela

Que me fez perder o apreço

Me mostrou na história

O amor também tem um fim

 

Era ela... Adeus.

 

 

13 de março de 2026

O Preço do Silêncio




Nas dobras do tempo onde o eco se cala,
um vulto emerge das cinzas do olvido.
Passos gravados em solos áridos,
solitário tecelão de noites sem fim.

Cicatrizes como mapas traçadas em segredo,
lições colhidas de abismos alheios.
Mestre das sombras, ele dança sozinho,
abraçando o vazio como velho confidente.

Das ruínas brotou a armadura de ferro,
desilusões forjadas em fornalhas frias.
No espelho, o reflexo sussurra: "Guarda-te",
pois o afeto próprio é chave de masmorras.

Sentou à mesa dos reis e dos mendigos,
bebeu do cálice amargo da abundância e da fome.
Centenas de véus roçaram sua pele,
uma só prendeu o coração em rede de estrelas.

Riquezas fluíram como rios efêmeros,
sequias o moldaram em essência pura.
E no silêncio final, o veredito: tudo pesava ouro,
renasceria das próprias brasas, sem remorso.

Que mistério pulsa nessa alma blindada?
Um homem que ri das tormentas passadas,
pronto para o ciclo eterno de quedas e voos,
pagando o preço do silêncio com o preço da vida.



11 de março de 2026

O amor egoísta, ou o egoísmo de quem ama.




Nas sombras do meu peito, um amor se esconde,
selvagem e solitário, rei sem coroa.
Ele sussurra segredos no escuro profundo,
"Primeiro eu, depois o mundo, em chamas devora".

Individualista, fiel só ao meu reflexo,
tece lealdade em fios de egoísmo puro.
Meu caráter é chama que não se apaga,
personalidade voraz, identidade escura.

Transbordo para ti, família, amigos, mulheres,
como rio que inunda sem perder a fonte.
Amo a vida em golfadas de paixão febril,
mas no fundo do poço, guardo o meu monte.

Ó mistério ardente, paixão que não divide,
você é meu veneno, meu néctar divino.
Amo o outro em ecos do meu próprio grito,
e no espelho quebrado, danço sozinho.



11 de fevereiro de 2026

O silêncio que me fez completo, ou a virtude de estar sozinho




No meio da multidão, eu era um eco sem voz,
engolido pelo ruído alheio, um corpo perdido em rostos vazios.
A solidão me devorava por dentro, como fome que corrói os ossos,
um grito mudo contra o mundo que girava indiferente,
críticas afiadas na língua, reclamações que sangravam o peito.
Eu buscava nos outros o que faltava em mim,
um preenchimento ilusório, um abraço que nunca chegava inteiro.

Então veio o silêncio imposto, o isolamento como lâmina cortante,
afastado de tudo, nu perante o espelho da própria existência.
O sofrimento rasgou as ilusões, expôs as feridas que eu carregava
como bagagens invisíveis, pesadas de julgamentos alheios.
Ali, no vazio, descobri o milagre: minha própria companhia.
Não mais o mundo como vilão, mas eu mesmo como centro quieto,
olhos voltados para dentro, onde o rio da alma corria sereno.

Agora, a solitude me envolve como manto tecida de luz suave,
completo no meu ser, sem necessidade de plateia ou aplausos.
Longe das vozes que outrora me afogavam, encontro paz profunda,
um sussurro interno que cura, que constrói catedrais no peito.
Eu sou ilha inteira, oceano e céu em um só fôlego,
onde o sozinho se torna sagrado, e o eu se basta eternamente.



3 de fevereiro de 2026

DO VAZIO QUE HABITA A CERTEZA


 


Navego em mares onde não há farol,

sem bússola celeste a me guiar o rumo,

e neste pélagο de névoa e de presumo,

construo, grão por grão, meu próprio arrebol.

Negaram-me os altares, mas não o sol

que nasce indiferente ao nosso cumo;

e se da fé renuncio ao doce sumo,

resta-me o peso insone do controle.

Porque é fardo também não ter certeza

do abraço que nos salva além da morte,

e erguer, sozinho, toda a fortaleza

da ética sem véu, da humana sorte.

Invejo, sim, a transcendente empresa

mas habito o real: meu céu e norte.

 

Há noites em que o cosmos me interroga

com seus bilhões de sóis indiferentes,

e sinto que as respostas mais prudentes

são as que a razão sóbria não derroga.

Mas algo em mim, secreto, ainda prorrogα

a solidão dos seres conscientes;

busco nas sombras vestígios patentes

de um sentido que a lógica não aloga.

Viver sem crer não é viver sem fome

do inexplicável, do que nos transcende

é aceitar que o mistério não se dome,

que nenhum dogma o abismo nos defende.

E nesse desamparo, acho meu nome:

humano que questiona e não se rende.

 

Abri mão das preces, não da reverência;

do templo, mas não do recolhimento.

Há liturgias no puro pensamento,

há graça mesmo em plena contingência.

Troquei a providência pela ciência,

o eterno pelo efêmero tormento,

e encontro neste lúcido momento

não paz talvez, mas íntegra existência.

Pois fé não é somente a que se ajoelha

diante do altar ou da promessa vã;

é crer também que a vida, embora velha

de dor e perda, ainda nos engana

com lampejos de amor e nisso se assemelha

ao sonho que os devotos chamam de mana.

 

Entre o vazio e o excesso de sentido,

habito a margem, o lugar incerto

onde o sagrado e o profano, perto,

dialogam sem que um seja desmentido.

Não creio, mas não julgo o convertido

que encontra no divino o campo aberto;

respeito o mistério que não decifro,

honro o silêncio, mesmo incompreendido.

Porque viver sem crer é também crer

na dignidade do que somos, nus,

sem outro amparo além do próprio ser.

É acender, na escuridão, a luz

da consciência e com ela aprender

que somos, ao final, nosso Jesus.




4 de janeiro de 2026

Ensaio Poético, ou Abraços que Tecem a Alma.


        Abraços que acolhem o peito e fazem a alma repousar, como o manto suave de uma madrugada serena, envolvendo o corpo exausto em um casulo de paz esquecida. Abraços cordiais, formais e sem afeto, trocados em salões frios de convenções sociais, onde os braços se cruzam por dever, mas o coração permanece intocado, um ritual vazio de calor humano. Abraços de saudade e de nostalgia, aqueles que apertam o ar entre os corpos ausentes, evocando cheiros de infâncias perdidas e risos ecoados no tempo, como fantasmas que se entrelaçam na penumbra da memória.

        Abraços de despedida, breves e cortantes como lâminas de adeus, que marcam a pele com a promessa de um vazio eterno, deixando o peito latejante de promessas não cumpridas. Abraços apaixonados e acalorados, fogos vorazes que consomem distâncias, fundindo peles suadas em um só pulsar, onde o desejo grita mais alto que qualquer palavra sussurrada. Abraços por abraçar, mecânicos e despretensiosos, dados ao estranho na rua ou ao amigo de passagem, um gesto banal que, por um instante, humaniza o caos da multidão.

    Abraços de família, raízes entrelaçadas em um emaranhado de braços e histórias compartilhadas, onde o sangue pulsa no mesmo ritmo, curando feridas invisíveis com a força de laços inquebráveis. Abraços de pai com filha, fortes e protetores como muralhas antigas, que carregam o peso de silêncios compreendidos, um colo que ensina a voar sem medo de cair. Abraços que não precisam de palavras para se eternizar, mudos e profundos, gravados na eternidade do toque, onde o olhar diz tudo e o corpo completa o verso inacabado.

      Abraços de quem ama e manifesta seus sentimentos com atitudes, não com flores murchas ou juras vazias, mas com o aperto firme que diz "estou aqui" em meio às tormentas da vida. Abraços de medo, apertados e trêmulos nas noites de pavor, onde dois corpos se unem contra o abismo, tecendo coragem a partir do tremor compartilhado. Abraços que fazem a cabeça reclinar nobre o peito com ato de amor, um ninho sagrado onde o mundo lá fora se dissolve, e resta apenas o ritmo compassado de dois corações em sintonia divina.

        Abraços de encontro, explosões de reencontro após anos de separação, que dissolvem o tempo em um só instante, reavivando chamas adormecidas com o mero roçar de peles. Abraços nunca mais vão se repetir, únicos e irrepetíveis, como estrelas cadentes que cruzam o céu uma única vez, deixando trilhas de luz na escuridão da alma. Abraços de Judas, traiçoeiros e doces na superfície, que beijam a face enquanto afiam a lâmina nas costas, um veneno disfarçado de afeto que corrói a confiança de dentro para fora.

        Abraços que fazem do silêncio uma eternidade de acolhimento e paz, onde o não dito se torna hino, e o vazio entre os braços se enche de compreensão infinita. Abraços de gratidão, leves como brisa de outono, dados ao destino por mais um dia de luz, um obrigado encarnado no gesto simples. Abraços de cura, balsâmicos e demorados, que cicatrizam feridas antigas com o calor da presença, transformando dor em lição sussurrada pelo toque.

        Abraços de criança com o mundo, inocentes e exploradores, que abraçam árvores, ventos e desconhecidos com a fome insaciável de descoberta, sem medo de rejeição. Abraços de luto, pesados e chorosos, que carregam o peso do ausente, unindo os vivos em uma rede de solidariedade tecida pela dor comum. Abraços eróticos, lentos e provocantes, que dançam na fronteira do prazer, acordando sentidos adormecidos com promessas de êxtase velado.

        Abraços de perdão, amplos e libertadores, que desfazem nós de rancor com a força de um reencontro purificado, lavando culpas no rio do afeto renovado. Abraços de vitória compartilhada, eufóricos e saltitantes, que erguem os corpos no ar como troféus vivos, celebrando conquistas com o clangor de risos entrelaçados. Abraços de solidão fingida, dados ao espelho ou ao travesseiro, ilusões que mascaram o vazio, mas alimentam a esperança de um toque real por vir.

        Abraços culturais, rituais de nações e povos, como os urso dos russos ou os efusivos dos latinos, pontes entre mundos que dissolvem fronteiras em um só pulsar universal. Abraços de pets fiéis, peludos e incondicionais, que curam o dia ruim com lambidas e ronrons, lembrando que o amor puro não precisa de palavras humanas. Abraços cósmicos, imaginados com o universo, onde o peito se abre para estrelas distantes, sentindo o abraço infinito da criação em noites de insônia contemplativa.

        Abraços que salvam vidas, dados no limiar do desespero, puxando a alma de volta do abismo com a âncora do calor alheio. Abraços efêmeros, como os de um metrô lotado, anônimos e passageiros, que por frações de segundo unem estranhos em uma sinfonia coletiva de proximidade. Abraços poéticos, forjados na imaginação do poeta, que transcendem o físico e envolvem a humanidade inteira em versos de ternura eterna.

        No fim, todos os abraços são fios de uma grande tapeçaria humana, tecendo alegrias e dores, presenças e ausências, em um padrão indecifrável mas belo. Eles nos lembram que, no toque, reside a essência do ser: frágil, eterno, divino.

 

22 de dezembro de 2025

Soneto do Calabouço Vivo



A beleza brota na contemplação,
no espanto puro, na surpresa da vida,
calabouço de dores que nos invade,
sentimentos em excessos, vazios na mão.

Prazeres que ardem, real que nos fere,
expõe a alma nua, sem véu ou ilusão,
fé, esperança e amor são a salvação,
antídotos vivos que o sofrimento esfare.

No breu do viver, achamos o divino,
luz que trespassa o caos confinado,
esperança tece a ponte ao infinito.

Amor cura o grito, fé ilumina o caminho,
no espanto da existência, tudo é sagrado,
beleza eterna no coração ferido.



13 de outubro de 2025

O tripé das relações humanas




Ser humilde é tocar o infinito com os pés no chão.

É reconhecer que o brilho do outro não apaga o nosso; apenas ilumina mais o caminho.
A humildade é a arte dos gigantes de alma, daqueles que não precisam subir em ninguém para enxergar longe.

Ter gratidão é dançar com o tempo, é saber que nada é por acaso, que até a dor ensina, que até o tropeço tem um propósito.
É a memória do coração, o reconhecimento silencioso de que cada gesto recebido é uma semente plantada na eternidade.

E saber pedir perdão… ah, isso é ser nobre.
É desarmar o ego, despir-se do orgulho e confessar a própria humanidade.
É curvar-se diante do outro não por fraqueza, mas por grandeza.
Pois quem pede perdão não se humilha — se liberta.

Humildade, gratidão e perdão: três pilares invisíveis que sustentam tudo o que é verdadeiramente humano.
Sem eles, o amor vira vaidade, a convivência vira disputa, e a vida perde o sentido.


Mas quando esses três caminham juntos, até o caos encontra harmonia.
Porque o coração que é humilde, grato e capaz de perdoar…
esse sim, conhece a grandeza de existir em paz.




 

19 de agosto de 2025

O oceano do saber




O saber é um rio sem margens,
quanto mais nele se navega,
mais se percebe o oceano aberto,
imenso, indomável, insondável.

A mente que se ergue em orgulho
afoga-se na própria vaidade,
mas a que se curva em silêncio
encontra no vazio a verdade.

Cada livro aberto é um espelho,
cada resposta, uma porta nova;
no instante em que se diz "eu sei",
a dúvida sussurra: "não basta".

Humildade é a coroa dos sábios,
pois quem muito aprende descobre
que a ignorância é infinita,
e o conhecimento, apenas lampejo.

Sábio é o que ajoelha diante do mistério,
não para rezar,
mas para ouvir.

11 de agosto de 2025

Anistia, ou Absolvam-me — Sou Culpado de Existir



Concedam-me anistia,
não pelo que fiz,
mas pelo que a vida fez de mim.

Anistia por cada imperícia
que derramou silêncio sobre gestos que deveriam falar,
por cada imprudência
que cortou caminhos antes de ver onde levavam,
por cada negligência
que deixou a flor secar antes de dar água.

Peço anistia pelos pecados
os confessáveis e os que nem eu ouso nomear,
pelos erros que escolhi
e pelos que nasceram sozinhos,
pelos crimes sutis do dolo eventual,
pelas culpas conscientes que carreguei como pedras na língua.

Anistia por não dobrar o joelho
diante das crenças alheias,
por não ajoelhar-me ao altar de certezas
que para mim sempre foram de areia.
Anistia por largar a fé
como se larga uma carta sem destinatário,
por rasgar promessas que nunca saíram do coração.

E, sobretudo,
anistia por ser eu,
este mosaico de erros e acertos
que não escolheu as peças que o compõem.
Se houver tribunal para a alma,
que ao menos me conceda
o benefício de existir
como fui moldado.



15 de julho de 2025

A lei da semeadura é mito


 

Plantamos amor, colhemos espinhos,
regamos o justo, cresce o espúrio.
Erguemos pontes com mãos limpas,
e eles com sangue constroem impérios.

Mentem, traem, riem no luxo,
caluniam em jantares requintados,
difamam com lábios dourados,
e o mundo... silencia e aplaude.

Dizem que tudo volta,
mas o retorno tarda ou nunca vem.
O vil prospera, o justo se cansa,
a colheita da alma vira desdém.

A tal “lei da semeadura”...
quem a escreveu não viu Babilônias.
Nem os altares erigidos com cadáveres,
nem as coroas feitas de mentira.

Então, o que vale?
Talvez e só talvez a consciência.
Não a paz dos justos, mas o sono dos íntegros,
o silêncio que não esmaga, mas liberta.

Viver com a alma limpa é revolução.
Ser bom em um mundo torpe é heresia.
Mas ainda assim, escolho a lucidez,
a honra que ninguém vê, mas arde
como fogo secreto, inextinguível.

Se não colho o que planto,
é porque o solo do mundo é podre.
Mas minha semente, ah...
ela é de ouro. E arde no tempo.

 

25 de junho de 2025

A poesia dos meus defeitos, ou Retratos da minha personalidade - Fragmentos do EU.



Carrego em mim um abismo calado,
Niilismo vestido de homem cansado.
Vejo o mundo sem véus nem mentiras,
Mas às vezes me afogo nas próprias retinas.

Sou castelo erguido na rocha da dor,
Orgulho de mármore, com rachaduras de amor.
Minha mente é uma lâmina afiada demais,
Que fere a mim mesmo em silêncios brutais.

Autossuficiente até demais para pedir socorro,
Prefiro morrer em pé do que viver de desafogo.
Meu controle é um cárcere de vidro e razão,
Um trono vazio dentro do meu coração.

Intelecto em chamas, ego mascarado,
Um sábio que às vezes fala calado.
Cobro do mundo aquilo que nem dou,
E sangro verdades que o tempo calou.

Sou intensidade que nunca relaxa,
E carrego no peito uma eterna ameaça:
De não saber ser leve, de não saber ser pouco,
De ser tempestade mesmo quando estou rouco.

Idealizo o amor como um livro sagrado,
E me frustro ao ver que o outro é falho e cansado.
Exijo perfeição do humano imperfeito,
E me afasto, soberbo, ferido no peito.

Rancores antigos moram nos meus ombros,
Memórias cortantes que não caem aos escombros.
E mesmo que o tempo queira me curar,
Revivo traições só para não me entregar.

Sou um general de batalhas internas,
Construo muralhas, destruo minhas pernas.
Mas no fundo, bem fundo, eu sei o que sou:
Um homem em guerra... que só quer um pouco de paz e amor.




20 de junho de 2025

Um Homem Só no Meio da Multidão, ou A Poesia da Solitude em Belo Horizonte.



Na metrópole viva de Belo Horizonte,
onde o concreto pulsa e o asfalto sonha,
um homem caminha entre bares e sinos,
ouvindo o silêncio no meio do som.

Milhões de rostos cruzam sua sombra,
milhares de vozes giram ao redor,
mas ele, inteiro, sente-se à parte,
não por tristeza, mas por amor.

Os bares transbordam risos ensaiados,
as igrejas elevam preces vazias,
as ruas gritam pressa, metas, metas…
e ele apenas respira, sem correria.

Durante o dia, vê olhos cegos,
focados em listas, planilhas, relógios.
À noite, os corpos dançam sozinhos,
disfarçando ausências com seus adereços.

Nas redes, as máscaras brilham mais
que os rostos por trás dos filtros.
As fotos mentem a alegria forjada,
mas ele já não compra mais sorrisos.

Foi então que abraçou sua própria ausência,
descobriu na solidão a doce morada.
A solitude; flor rara entre espinhos
tornou-se seu lar, sua estrada.

Fez da própria companhia um templo,
do silêncio, um diálogo profundo.
E ali, sem distrações nem vícios,
encontrou o universo em um segundo.

Viajou por dentro e por fora,
descobriu montanhas e cafés
onde sentar-se só era liberdade
e não sentença de ninguém.

Quando com amigos, é inteiro,
brinda o instante com coração aceso.
Mas quando a multidão o engole,
ele sorri; não está indefeso.

Pois aprendeu o que poucos sabem:
a felicidade não mora nas vitrines,
não depende de beijos, nem curtidas,
mas brota onde o espírito se afine.

Um homem só entre milhões,
e ainda assim, tão pleno, tão vasto.
Não espera que o mundo o preencha
ele mesmo se tornou o espaço.

Assim vive em BH, entre igreja e boteco,
entre morros, buzinas e promessas,
sabendo que a alma que se conhece
jamais se afoga nas pressas.

Não é amargura, é liberdade.
Não é desprezo, é maturidade.
É ter descoberto o sagrado segredo:
estar só... e não sentir saudade.

 


19 de junho de 2025

O Sarcasmo de DEUS, ou Ele contra si mesmo.



No princípio, DEUS cria tudo do nada,
Mas já sabia o fim — que piada.
Cria o homem com amor e primor,
Mas já planejava dilúvio e terror.

Cria Adão do barro com todo cuidado,
Depois o culpa por ser enganado.
Cria Eva da costela do coitado,
Mas pune ambos por terem pecado.

Proíbe o fruto que Ele mesmo plantou,
Sabendo que o homem cedo o provaria, show!
Coloca a serpente no meio do jardim,
Depois finge surpresa pelo que chega ao fim.

DEUS expulsa, DEUS amaldiçoa,
DEUS que tudo sabe, agora se magoa.
Cria o livre-arbítrio, mas com censura,
A primeira escolha gera censura.

Vê a Terra cheia de gente errada,
Então manda um dilúvio, obra abençoada.
Mata criança, velhinho e mulher,
Porque “justiça divina” tudo requer.

Depois promete nunca mais se irritar,
Mas já planeja cidades arrasar.
Escolhe um povo, Israel abençoado,
Mas vive punindo esse rebanho rebelado.

Pede sacrifício, sangue e fumaça,
Faz da adoração um rito de ameaça.
Manda matar povos por não crer,
Porque DEUS é amor... só pra entender.

Moisés sobe ao monte, vê a luz,
Recebe as tábuas, mas DEUS reluz.
Depois quebra tudo por idolatria,
Como se DEUS não visse aquela orgia.

Os profetas gritam: "obedece, Israel!",
Mas DEUS já sabia que daria réu.
Promete Messias, paz e redenção,
Mas manda Seu Filho para a execução.

DEUS, o eterno, nasce bebê,
Numa estrebaria, sem nada a oferecer.
Filho de virgem, claro, por sinal,
Já começa quebrando toda lógica natural.

Cresce em sabedoria, embora seja DEUS,
Aprende carpintaria, constrói alguns véus.
Jejua no deserto, tenta o tentador,
Mas sendo DEUS, qual o valor?

Anda sobre as águas, cura o cego,
Multiplica pão, faz o grande ego.
Mas chora, sofre e ora em aflição,
Pedindo a DEUS outra solução.

Ora a Si mesmo? Implora clemência?
Sabe o plano, mas sofre com urgência.
Sangra suor, lágrimas de dor,
Mesmo sendo DEUS e o puro amor.

É traído por Judas, amigo e irmão,
Cumprindo profecia, mas com frustração.
É preso, julgado por um tribunal,
Criado por Ele, que coisa brutal.

É cuspido, açoitado e zombado,
Por gente que DEUS mesmo havia moldado.
Pendurado num madeiro em horror,
Clama: “DEUS meu!” — drama de autor.

DEUS abandona DEUS no alto da cruz,
Mas continua sendo um com DEUS, que nos conduz.
Morre, desce ao Hades em missão secreta,
Prega aos mortos — agenda completa.

Ressuscita a Si mesmo no terceiro dia,
Vence a morte com maestria.
Sobe aos céus, senta ao lado de DEUS,
Que é Ele mesmo — confuso, não é? Pois é.

Promete voltar num cavalo de glória,
Mas demora milênios pra mudar a história.
Enquanto isso, salva quem crê,
Mas condena quem, por lógica, duvidar de ver.

DEUS que te ama, mas te lança no fogo,
Caso questione ou saia do jogo.
Diz que perdoa, mas com cláusula extra,
Aceite o Filho, senão já era a festa.

Deus-Justiça, DEUS-Misericórdia, DEUS-Paixão,
Três em um, uma só salvação.
Advogado, juiz e carrasco no final,
Amor eterno com cláusula condicional.

Proíbe a dúvida, prega o temor,
Enquanto exige que creiamos por amor.
Não se prova, mas exige fé,
Senão, o inferno é seu café.

E assim segue o ciclo da revelação:
Criação, queda, salvação e punição.
Um DEUS que tudo é, mas tudo esconde,
E no fim, só compreende quem responde.


Mas diga, leitor, sem medo ou véu:
Como pode um DEUS ser 
e ter todas as características daquilo que não existe no céu?



O Enigma de DEUS e suas contradições, ou Suas Complexidades e Perplexidades.



DEUS cria o tempo, o espaço, o ser,
Mas entra no tempo para sofrer.
DEUS tudo vê, tudo sabe e tudo faz,
Mas se encarna num corpo que sangra em paz.

DEUS nasce de virgem, sem sêmen ou dor,
Criador da mãe que o gerou no amor.
DEUS, o eterno, viveu como um homem,
Sentiu fome, chorou, foi chamado pelo nome.

DEUS ora a DEUS com lágrimas quentes,
Temendo a cruz e os cravos ardentes.
DEUS suplica: “Afasta de mim este cálice”,
Mas DEUS responde com silêncio e análise.

DEUS sacrifica DEUS para apaziguar DEUS,
Num plano secreto entre os céus e os céus.
DEUS não quer a morte, mas a aceita calado,
Pois DEUS ordenou que fosse imolado.

DEUS, que criou a lei com Sua mão,
Morre para cumprir Sua própria sanção.
DEUS é juiz, cordeiro e altar,
A si mesmo se entrega para se justificar.

DEUS foi cuspido por sua criação,
Humilhado, nu, sem proteção.
Pendurado em dor, clama em agonia:
“DEUS meu, DEUS meu”, no fim do dia.

Mas como pode DEUS abandonar DEUS,
Se DEUS é um, não dois, nem três céus?
DEUS sente ausência, mesmo onipresente,
Morre mortal, mas é onipotente.

DEUS é enterrado, a pedra rola,
O Criador jaz mudo, sem fala.
Mas no terceiro dia, a luz resplandece,
DEUS levanta DEUS e a morte estremece.

DEUS sobe aos céus e se assenta consigo,
À direita de DEUS, Ele é Seu próprio abrigo.
Intercede a DEUS por quem DEUS escolheu,
Mas pune eternamente quem não creu.

DEUS ama a todos, com fogo e temor,
Mas lança no inferno quem rejeita o amor.
DEUS oferece graça, mas com condição,
Eterna salvação por aceitação.

DEUS é amor, mas Seu fogo devora,
Espera que O aceitem, ou destrói sem demora.
DEUS dá livre arbítrio, mas exige um “sim”,
Senão o castigo é não ter mais fim.

DEUS é espírito, mas habitou um ventre,
Eterno no tempo, presente e ausente.
DEUS não muda, mas muda o testamento,
Deus da velha aliança, agora mais lento.

DEUS conhece o fim antes do início,
Mas se decepciona com cada vício.
DEUS julga tudo, mas precisa provar,
Que a cruz foi o preço do Seu próprio julgar.

DEUS salva pela fé, mas quer obediência,
Quer obras, doutrinas, e penitência.
DEUS é simples, mas de difícil entender,
Um ser que é três, mas não pode se dividir.

DEUS é Senhor, lava os pés do traidor,
Permite o beijo que sela a dor.
DEUS é Rei, mas cavalga um jumento,
Deixa-se prender sem nenhum lamento.

DEUS é a luz que habita em mistério,
O fogo que consome e o coração sério.
É paz que guerreia, amor que castiga,
O abraço e o açoite em mesma medida.

DEUS é Pai do Filho, que é DEUS também,
E ambos enviam DEUS, que em todos vem.
Um só ser, três consciências divinas,
Insondável lógica das escrituras finas.

E se você não crê em DEUS como DEUS quis,
Não importa se foi bom, reto ou feliz,
DEUS te lança fora da Sua presença,
Pois a fé é cláusula da Sua sentença.

DEUS criou o mundo, a cruz, o inferno,
Tudo se fecha num ciclo eterno.
DEUS venceu a si mesmo no calvário,
Num drama divino, cruel e necessário.

E a humanidade assiste, perplexa e pequena,
A um DEUS que é drama, amor e condena.
Um DEUS que se mata para se aplacar,
E exige do homem apenas… crer e amar.




Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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