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15 de junho de 2026

No Princípio do Encontro, ou o 3º evangelho das boas novas anunciando o amor.

 



No princípio era o silêncio,
e o silêncio estava comigo,
e o silêncio era eu mesmo.
uma luz a espera de outra luz
como um olhar que encontra e seduz.

E aconteceu que em determinado dia,
não por acaso, pois o acaso
é apenas o nome que damos
ao que não sabemos reconhecer,
duas presenças se aproximaram
como rios que desceram montanhas diferentes
e que o vale sempre soube
que se encontrariam.

E viste nele aquilo que se vê
quando a alma deixa os olhos descansarem:
não a forma que passa,
mas o fogo que permanece.
E reconheceste no modo como ele falava
a mesma língua que tu já falava
dentro de ti, em silêncio,
sem nunca ter encontrado quem ouvisse.

Porque o amor que dura
não começa com o desejo de possuir,
mas com o espanto de encontrar
com aquela suspensão do tempo
que diz: aqui. este. agora.

E o respeito foi a primeira palavra.
Não aquela reverência de quem teme,
mas aquela que só nasce
em quem reconhece em outro
uma dimensão que não pode ser diminuída.
O que se respeita não se devora.
O que se respeita, floresce.

E a admiração veio depois,
mansamente como a madrugada
que não anuncia a si mesma
mas simplesmente está
quando abres os olhos.
Não a admiração de quem se ajoelha,
mas a de quem olha e pensa:
que extraordinário este ser.
Raro e necessário ao mundo.

E no caminho que percorreram juntos
foram descobrindo que os valores
não são muros que separam os que chegam,
mas pontes que sustentam os que ficam.
Que compartilhar uma visão do que é justo
é mais íntimo do que compartilhar um leito.
Que dois que caminham na mesma direção
já estão, de alguma forma, abraçados.

E a amizade veio antes que soubessem nomeá-la
aquela qualidade de presença
em que não é preciso ser diferente do que se é,
em que o silêncio entre dois
não pesa, mas descansa.
Amizade que não enfraquece o amor,
mas é a sua fundação mais firme,
o chão que segura a casa
quando a tempestade vem.

E o amor se foi construindo
não como monumento,
mas como pão
feito todos os dias,
de coisas simples e essenciais,
e que alimenta
exatamente porque é real.

Não o amor que exige ser eterno
para se sentir verdadeiro,
mas o que se entrega inteiro
neste instante,
sabendo que o instante
é a única eternidade que existe.

Porque o tempo não é uma linha.
É uma profundidade.
E dois que se encontram dessa forma
não andam juntos lado a lado apenas
descem juntos,
camada por camada,
em direção ao que há de mais essencial
em cada um.

E o que encontraram lá dentro
não era a fusão de dois em um,
mas algo mais belo e mais difícil:
a comunhão de dois que permanecem inteiros
e que, exatamente por isso,
têm algo verdadeiro a oferecer.

E a luz de um
não apagou a luz do outro.
E a luz de um
revelou o que havia no outro
que a escuridão escondia.

E eram dois,
e eram um,
e eram mais do que os dois juntos
que é o único milagre que o amor
consegue realizar
sem negar a realidade.

E o que se encontrou no princípio,
permanece.

 



19 de junho de 2025

Entre Diamantes e Destinos, ou Amizades & o Tempo.




Amizade é barro antigo que o tempo esculpe com dedos de eternidade.
Não nasce pronta: germina em silêncios partilhados,
em olhos que se entendem sem palavras,
e cresce no terreno fértil da confiança, 
onde a raiz é a lealdade e o fruto, a presença.
Há quem chame de sorte, 
mas é obra do destino que não erra o entalhe quando junta almas raras.
Não se compra, não se mendiga, não se exige — conquista-se com inteireza e verdade.

Enquanto os amores ardem e se apagam como fogueiras de São João,
a amizade cintila como estrela antiga: luz constante em noite escura.
Mais que um irmão de sangue, é o irmão de escolha, de afeto sem cláusulas,
de ombro onde repousa o cansaço e de riso que estoura quando a dor quer calar.
É a mão que não solta quando o mundo gira ao avesso.

O tempo, escultor paciente, é quem lapida os vínculos verdadeiros.
Com ele, as arestas se tornam encaixes e os desencontros, aprendizados.
Como o diamante que só brilha após a pressão,
as amizades genuínas revelam-se após a prova do tempo.
São ouro de mina, relíquia que não se acha em toda esquina.

A honestidade é sua fundação 
sem ela, desaba o edifício mais ornamentado.
Lealdade é seu alicerce: firme, mesmo nas tempestades mais amargas.
E o respeito é a moldura invisível que preserva o quadro do afeto intacto.
Cada gesto, palavra ou silêncio carrega a poesia da confiança mútua.

São mais sublimes que muitos amores passageiros,
porque não cobram juras, apenas presença sincera.
São mais preciosas que alguns irmãos,
pois nascem do vínculo eleito, e não da obrigação herdada.
Na amizade verdadeira, não há papel de protagonistas — há simetria.

Quantas vezes o amigo foi pássaro a cantar nos telhados da minha tristeza?
Quantas vezes foi cais quando fui barco perdido no nevoeiro?
E quando o mundo parecia ruir em cinzas,
lá estava ele: fogo baixo aquecendo meu inverno.
É poesia em forma de pessoa — verso vivo de reciprocidade.

A amizade é um pacto tácito entre almas que se reconhecem
num mundo onde tantos se mascaram.
É o antídoto para a solidão do século,
o abrigo que resiste às estações e às decepções do existir.
Quando o amor parte, a amizade fica. Quando a esperança morre, ela a enterra de mãos dadas.

Cultivar uma amizade é como lapidar um cristal bruto:
cada erro ensina, cada acerto fortalece.
E quando, por fim, a vida se põe em crepúsculo,
restam poucos ao redor — mas os verdadeiros sempre ficam.
Pois amigo que é amigo, não é visita: é morada.

Assim, brindo aos que permanecem.
Aos que não fogem diante da dor,
aos que celebram as conquistas como se fossem suas,
e que mesmo no silêncio, dizem: estou aqui.
Pois são esses que fazem da vida um poema digno da eternidade.



Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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