Diga-me com quem tu andas, que desvelarei teus segredos,
desnudarei tua alma como quem abre um livro antigo,
revelarei o teu passado escrito em cada gesto,
escreverei nas esquinas o futuro que ainda é teu inimigo.
Pois o homem se mede pela sombra que escolhe ao lado
e a companhia revela o que o espelho nunca disse.
Diga-me o que lês, que direi o tamanho da tua tolice e sabedoria,
farei poesia com os teus pensamentos emprestados de outros,
revelarei as senhas que guardas sem saber que carregas,
Pois cada página que escolhes é uma confissão silenciosa.
O que devoras em segredo te devora de volta, lento,
e te torna, sem perceber, semelhante ao que admiras.
Diga-me o que pensas, que direi as tuas ansiedades,
o abismo que há no teu peito e que finges não ver,
a saudade que não consegues olvidar nas madrugadas,
o nome que tua boca cala mas teu silêncio sabe dizer.
Pois o pensamento é a única terra onde ninguém te vigia,
e ali, sozinho, és mais verdadeiro do que ousas parecer.
Diga-me o que sonhas, que direi o que falta à tua vida,
o vazio que tentas preencher com pressa e ruído,
a glória que persegues como quem persegue uma ferida,
o paraíso que inventaste pra fugir do que já viveu.
Pois sonhamos sempre aquilo que a realidade nos negou,
e no sonho mais simples mora a confissão mais nua.
Diga-me o que calas, que direi o que mais pesa,
a palavra engolida que virou nó na garganta,
o perdão que não deste e a dor que ainda represa,
a verdade que poupaste pra não ferir quem te encanta.
Pois o silêncio também é linguagem, e às vezes a mais honesta,
fala mais alto do que qualquer grito que a boca levanta.
Diga-me o que amas, que direi quem tu és de verdade,
o lugar onde repousas quando o mundo te cansa,
a pessoa por quem mudarias até a tua vontade,
a beleza que te faz parar e esquecer a pressa.
Pois amar é a única tradução exata da alma,
e o que amas sem disfarce é o teu ser verdadeiro.
Diga-me o que temes, que direi as portas que evitas,
o espelho que não encaras de manhã sem pressa,
a solidão que foge de ti e que tu também evitas,
o fim que adias como quem adia uma promessa.
Pois o medo é o mapa exato de tudo que valorizas,
e quem sabe temer sabe também o que de fato preza.
Diga-me o que esqueces, que direi o que ainda dói,
a data que tua memória apaga mas o corpo guarda,
o rosto que se foi e a ausência que não se esvai nem foi,
a infância que terminou sem aviso e sem guarda.
Pois esquecemos só aquilo que ainda não cicatrizou,
e o esquecimento no fundo é a forma mais triste de lembrar.

Nenhum comentário:
Postar um comentário