Não nascemos; fomos colocados,
sementes de um jardim que esquecemos o nome
em solo que não pediu por nós,
sob um céu que ainda nos estranha.
Toda fera aqui sabe seu lugar:
a garra serve à caça, o pelo serve ao frio,
a asa nasce sabendo o vento.
Só o homem chega nu, perguntando,
e por não caber em nicho algum,
inventa o mundo onde devia apenas viver.
Lavramos a terra como quem corrige um erro,
domesticamos o trigo, dobramos o boi,
porque o Éden que nos coube
não era exatamente este.
Há duzentos mil anos trazemos
o mesmo corpo, a mesma fome antiga,
e cento e noventa mil deles
ficamos imóveis, como quem aguarda
lembrar de onde caiu.
Talvez sejamos apenas isso:
uma colônia que esqueceu a nave,
um povo que confundiu exílio com origem,
e chamou de espécie
o que era na verdade,
saudade de outro céu.
E quando olhamos para as estrelas
não é curiosidade o que sentimos
é o instinto mudo de quem reconhece,
sem provas, sem mapa, sem nome,
o caminho de casa.

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