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15 de junho de 2026

O Exílio Voluntário, ou a ausência que tem substância.



 

Moro num lugar que não tem endereço,

habito o silêncio entre dois olhares,

sou o estranho familiar do próprio avesso,

testemunha imóvel dos seus próprios mares.

O mundo passa com sua fome antiga,

faminta de ouro, de palco, de poder,

eu passo por ele como quem navega

numa correnteza que não quer me ter.

 

Não me pertence a pressa dos que correm

atrás de sombras com nome de conquista,

nem as amizades que só aparecem

quando a mesa está posta e a vida é vista.

Fui me exilando de mim devagar,

não por fraqueza, mas por claridade,

como quem aprende que o melhor lugar

é o silêncio honesto da própria verdade.

 

E nesse silêncio encontro o que procuro:

uma nota longa que não quer terminar,

um verso que sangra mas que ainda é puro,

e o toque de quem sabe onde tocar.

Não busco o amor que preenche calendário,

busco o amor que desnuda antes do beijo,

que chega sem aviso, sem rosário,

e toca fundo aquilo que eu desejo.

 

O sexo como oração sem catecismo,

dois corpos que rezam sem saber o nome,

a carne como templo, como abismo,

e a alma que se entrega quando some.

Estou no mundo como quem assiste,

presente mas inteiro na distância,

e o que me salva é exatamente isto:

saber que a minha ausência tem substância.




Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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