Há em nós dois rios que não correm juntos,
um de fogo, outro de pedra fria e clara,
e o homem que os contém sujeito a pontos
de ruptura, navega entre fogueira e ara.
A razão é o arquiteto que no barro
desenha a forma antes que o barro exista,
ela mede o possível, afasta o bizarro,
constrói cidades onde havia só conquista.
Sem ela, somos tempestade sem direção,
somos o amor que queima a própria casa,
a cólera que julga sem inquisição,
o medo que obedece antes da ameaça.
Mas o que vale o arquiteto sem desejo?
O que move a pedra se não há quem queira?
A razão pura é um palácio sem festejo,
geometria fria, cálculo, fronteira.
A emoção é o solo onde a vida acontece,
é o pulso que antecede o pensamento,
ela sente o outro antes que a mente teça
qualquer argumento, qualquer fundamento.
Sem ela, somos máquinas bem alinhadas,
somos a virtude que ninguém abraça,
a justiça dita por leis nunca amadas,
a verdade que corta, fere e não passa.
Aristóteles sabia, e por isso insistia:
a eudaimonia não mora num dos lados,
não é a frieza que o sábio exercia,
nem o êxtase de corpos dominados.
É o meio, esse lugar difícil de habitar,
onde a paixão obedece ao que é nobre,
onde a razão aprende a se emocionar
diante do belo, do justo, do queobre.
O perigo da razão é esquecer que é meio,
tornar-se fim, enrijecer em dogma,
calcular o amor como se fosse enseio
de lucro, e à crueldade dar um nome.
O perigo da emoção é não ter dono,
ser arrastada pela maré do instante,
confundir intensidade com o bom,
e chamar de virtude o que é somente ardente.
Entre o logos e o pathos, há um caminho estreito
que os gregos chamavam de caminho do meio,
não de mediocridade, mas de respeito
ao ser que pensa e sente ao mesmo tempo.
Somos o único animal que chora e argumenta,
que se pergunta o porquê da própria dor,
que à razão submete o que o sangue inventa
e ainda assim prefere a vida com calor.
Que eu nunca seja tão racional
que esqueça o nome do que me comove,
nem tão tomado pelo emocional
que perca o fio antes que a manhã me prove.
Que eu seja como queria o Estagirita,
um animal político e sensível,
que pensa com a alma e que a alma habita
o corpo que raciocina e é perecível.

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