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16 de junho de 2026

O Logos e o Pathos



Há em nós dois rios que não correm juntos,

um de fogo, outro de pedra fria e clara,

e o homem que os contém sujeito a pontos

de ruptura, navega entre fogueira e ara.

 

A razão é o arquiteto que no barro

desenha a forma antes que o barro exista,

ela mede o possível, afasta o bizarro,

constrói cidades onde havia só conquista.

 

Sem ela, somos tempestade sem direção,

somos o amor que queima a própria casa,

a cólera que julga sem inquisição,

o medo que obedece antes da ameaça.

 

Mas o que vale o arquiteto sem desejo?

O que move a pedra se não há quem queira?

A razão pura é um palácio sem festejo,

geometria fria, cálculo, fronteira.

 

A emoção é o solo onde a vida acontece,

é o pulso que antecede o pensamento,

ela sente o outro antes que a mente teça

qualquer argumento, qualquer fundamento.

 

Sem ela, somos máquinas bem alinhadas,

somos a virtude que ninguém abraça,

a justiça dita por leis nunca amadas,

a verdade que corta, fere e não passa.

 

Aristóteles sabia, e por isso insistia:

a eudaimonia não mora num dos lados,

não é a frieza que o sábio exercia,

nem o êxtase de corpos dominados.

 

É o meio, esse lugar difícil de habitar,

onde a paixão obedece ao que é nobre,

onde a razão aprende a se emocionar

diante do belo, do justo, do queobre.

 

O perigo da razão é esquecer que é meio,

tornar-se fim, enrijecer em dogma,

calcular o amor como se fosse enseio

de lucro, e à crueldade dar um nome.

 

O perigo da emoção é não ter dono,

ser arrastada pela maré do instante,

confundir intensidade com o bom,

e chamar de virtude o que é somente ardente.

 

Entre o logos e o pathos, há um caminho estreito

que os gregos chamavam de caminho do meio,

não de mediocridade, mas de respeito

ao ser que pensa e sente ao mesmo tempo.

 

Somos o único animal que chora e argumenta,

que se pergunta o porquê da própria dor,

que à razão submete o que o sangue inventa

e ainda assim prefere a vida com calor.

 

Que eu nunca seja tão racional

que esqueça o nome do que me comove,

nem tão tomado pelo emocional

que perca o fio antes que a manhã me prove.

 

Que eu seja como queria o Estagirita,

um animal político e sensível,

que pensa com a alma e que a alma habita

o corpo que raciocina e é perecível.




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