Moro num lugar que não tem endereço,
habito o silêncio entre dois olhares,
sou o estranho familiar do próprio avesso,
testemunha imóvel dos seus próprios mares.
O mundo passa com sua fome antiga,
faminta de ouro, de palco, de poder,
eu passo por ele como quem navega
numa correnteza que não quer me ter.
Não me pertence a pressa dos que correm
atrás de sombras com nome de conquista,
nem as amizades que só aparecem
quando a mesa está posta e a vida é vista.
Fui me exilando de mim devagar,
não por fraqueza, mas por claridade,
como quem aprende que o melhor lugar
é o silêncio honesto da própria verdade.
E nesse silêncio encontro o que procuro:
uma nota longa que não quer terminar,
um verso que sangra mas que ainda é puro,
e o toque de quem sabe onde tocar.
Não busco o amor que preenche calendário,
busco o amor que desnuda antes do beijo,
que chega sem aviso, sem rosário,
e toca fundo aquilo que eu desejo.
O sexo como oração sem catecismo,
dois corpos que rezam sem saber o nome,
a carne como templo, como abismo,
e a alma que se entrega quando some.
Estou no mundo como quem assiste,
presente mas inteiro na distância,
e o que me salva é exatamente isto:
saber que a minha ausência tem substância.

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