No princípio era o silêncio,
e o silêncio estava comigo,
e o silêncio era eu mesmo.
uma luz a espera de outra luz
como um olhar que encontra e seduz.
E aconteceu que em determinado dia,
não por acaso, pois o acaso
é apenas o nome que damos
ao que não sabemos reconhecer,
duas presenças se aproximaram
como rios que desceram montanhas diferentes
e que o vale sempre soube
que se encontrariam.
E viste nele aquilo que se vê
quando a alma deixa os olhos descansarem:
não a forma que passa,
mas o fogo que permanece.
E reconheceste no modo como ele falava
a mesma língua que tu já falava
dentro de ti, em silêncio,
sem nunca ter encontrado quem ouvisse.
Porque o amor que dura
não começa com o desejo de possuir,
mas com o espanto de encontrar
com aquela suspensão do tempo
que diz: aqui. este. agora.
E o respeito foi a primeira palavra.
Não aquela reverência de quem teme,
mas aquela que só nasce
em quem reconhece em outro
uma dimensão que não pode ser diminuída.
O que se respeita não se devora.
O que se respeita, floresce.
E a admiração veio depois,
mansamente como a madrugada
que não anuncia a si mesma
mas simplesmente está
quando abres os olhos.
Não a admiração de quem se ajoelha,
mas a de quem olha e pensa:
que extraordinário este ser.
Raro e necessário ao mundo.
E no caminho que percorreram juntos
foram descobrindo que os valores
não são muros que separam os que chegam,
mas pontes que sustentam os que ficam.
Que compartilhar uma visão do que é justo
é mais íntimo do que compartilhar um leito.
Que dois que caminham na mesma direção
já estão, de alguma forma, abraçados.
E a amizade veio antes que soubessem nomeá-la
aquela qualidade de presença
em que não é preciso ser diferente do que se é,
em que o silêncio entre dois
não pesa, mas descansa.
Amizade que não enfraquece o amor,
mas é a sua fundação mais firme,
o chão que segura a casa
quando a tempestade vem.
E o amor se foi construindo
não como monumento,
mas como pão
feito todos os dias,
de coisas simples e essenciais,
e que alimenta
exatamente porque é real.
Não o amor que exige ser eterno
para se sentir verdadeiro,
mas o que se entrega inteiro
neste instante,
sabendo que o instante
é a única eternidade que existe.
Porque o tempo não é uma linha.
É uma profundidade.
E dois que se encontram dessa forma
não andam juntos lado a lado apenas
descem juntos,
camada por camada,
em direção ao que há de mais essencial
em cada um.
E o que encontraram lá dentro
não era a fusão de dois em um,
mas algo mais belo e mais difícil:
a comunhão de dois que permanecem inteiros
e que, exatamente por isso,
têm algo verdadeiro a oferecer.
E a luz de um
não apagou a luz do outro.
E a luz de um
revelou o que havia no outro
que a escuridão escondia.
E eram dois,
e eram um,
e eram mais do que os dois juntos
que é o único milagre que o amor
consegue realizar
sem negar a realidade.
E o que se encontrou no princípio,
permanece.
