Escrevo nas paredes como quem tenta ensinar o silêncio a falar.
Escrevo nos cadernos para não me perder de mim mesmo.
Escrevo nas calçadas onde os passos apagam,
mas por um instante, vivem.
Escrevo no ar, ainda que ninguém veja.
porque há coisas que só existem enquanto são ditas.
Escrevo no corpo do tempo,
rasgo o agora com palavras
e deixo sangrar sentidos.
Escrevo porque minha sina não é viver,
é traduzir o viver.
Respiro versos como quem precisa de oxigênio,
e quando falta, sufoco em pensamentos não escritos.
Canto poemas aos ouvidos do invisível,
salmodio provérbios às horas vazias,
e nos paradoxos encontro abrigo
pois só o contraditório me cabe inteiro.
Escrevo o que sinto,
mesmo quando o sentir me escapa.
Escrevo o que penso,
mesmo quando o pensar me trai.
E escrevo sobretudo o que não compreendo
porque há mistérios que só se revelam no ato de tentar dizê-los.
Escrevo pelo mundo,
mas é o mundo que me escreve de volta.
Sou papel de algo maior,
sou tinta de um enigma antigo.
E quando tudo se cala
quando nem a dor ousa falar
ainda assim escrevo…
porque no fim escrever
é a única forma que encontrei
de continuar existindo.

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