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31 de dezembro de 2025

Da Lei Divina à Lei Humana: A Evolução dos Pecados Bíblicos em Crimes e Normas Sociais





        A noção de "pecado" na Bíblia, codificada há mais de três mil anos por tribos nômades do deserto do Oriente Médio, representava um código espiritual rígido, muitas vezes arbitrário, que regulava a vida cotidiana sob pena de punição divina. Esses preceitos, enraizados em contextos tribais, patriarcais e agrários, foram superados pelo avanço da sociedade humana. O que outrora era "pecado" — uma ofensa contra deuses irados — foi absorvido pelas constituições modernas, pelos direitos humanos universais e pelas condutas éticas da convivência civilizada. Hoje, o Código Penal e o Código Civil tipificam como crimes graves o que a Bíblia condenava como impureza espiritual; questões menores viraram mera imoralidade ou falta de ética. Essa transição não é mero acidente histórico, mas fruto da razão coletiva, do Iluminismo, das revoluções sociais e do humanismo secular. Neste ensaio, comparamos esses "pecados" com as leis contemporâneas, destacamos os absurdos bíblicos abolidos e traçamos a evolução do direito e da sociedade, com ênfase na emancipação feminina.

Pecados Absorvidos: Do Sagrado ao Secular

        Muitos mandamentos bíblicos foram secularizados, perdendo o manto divino para ganhar força legal. Tomemos o assassinato: no Êxodo 20:13, "Não matarás" é o sexto mandamento, um pecado capital punido com a ira de Deus. Hoje, o artigo 121 do Código Penal brasileiro define homicídio como crime, com penas de 6 a 20 anos de reclusão, sem apelos a entidades sobrenaturais. O roubo, proibido em Êxodo 20:15, vira furto ou roubo (artigos 155 e 157 do CP), com agravantes para vulneráveis. A mentira, outrora pecado contra o nono mandamento ("Não darás falso testemunho"), é agora crime de calúnia, difamação ou injúria (artigos 138 a 140), regulado pela esfera civil e penal.

        O dízimo, instituído em Deuteronômio 14:22-29 para sustentar viúvas, órfãos, estrangeiros e levitas no Templo, era uma obrigação espiritual sob risco de maldição divina (Malaquias 3:8-10). Hoje, o Estado brasileiro, via Constituição Federal de 1988 (artigo 6º), cobra impostos como IR, ICMS e contribuições previdenciárias, destinando-os a programas sociais como Bolsa Família, SUS e aposentadorias. A sociedade evoluiu de uma teocracia tribal para um welfare state laico, onde a solidariedade é dever cívico, não barganha com deuses.

        Esses exemplos ilustram a absorção: o que era "pecado" contra Javé virou crime contra a sociedade ou obrigação contratual. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) elevou isso a patamar universal, priorizando a dignidade humana sobre dogmas antigos.

Absurdos Abolidos: Práticas "Normais" que Hoje São Crimes Hediondos

        A Bíblia não só condenava pecados, mas normalizava horrores que chocam a consciência moderna. Esses absurdos, vistos como vontade divina, foram varridos pela evolução ética e legal, expondo a limitação temporal de textos sagrados.

        A escravidão, longe de ser pecaminosa, era endossada. Em Levítico 25:44-46, hebreus podiam comprar escravos de nações vizinhas como "propriedade perpétua", herdáveis como gado. Êxodo 21:20-21 permite bater no escravo sem punição, desde que não morra imediatamente. Paulo, no Novo Testamento (Efésios 6:5), exorta escravos a obedecerem senhores "como a Cristo". Hoje, a escravidão é crime inafiançável no Brasil (artigo 149 do CP, Lei 13.344/2016), condenado pela ONU como violação aos direitos humanos. A sociedade aboliu o que a Bíblia santificava, graças a abolicionistas como Joaquim Nabuco e à Convenção 29 da OIT (1930).

    Sacrifícios animais, rotina no Antigo Testamento (Levítico 1-7), envolviam milhares de bois, ovelhas e aves queimados para apaziguar Deus — um "cheiro suave" (Gênesis 8:21). Hoje, isso é crime de maus-tratos (Lei 9.605/1998, artigo 32), com penas de detenção e multa. A proteção animal evoluiu de pitágoras à legislação ambiental, priorizando empatia sobre rituais sangrentos.

        A lapidação por adultério ou blasfêmia era mandamento divino: Levítico 20:10 prescreve morte por apedrejamento para adúlteros; Deuteronômio 13:6-10, para quem seduzisse à idolatria, inclusive familiares. Em João 8:3-11, fariseus tentam apedrejar uma adúltera perante Jesus. Hoje, tais execuções sumárias violam o devido processo legal (Constituição, artigo 5º, LVII) e são genocídio ou crime contra humanidade (Estatuto de Roma, 1998). A pena de morte, comum na Bíblia (mais de 30 ofensas capitais), foi abolida no Brasil desde 1889, refletindo o humanismo kantiano: tratar pessoas como fins, não meios.

        Outros absurdos: comer mariscos ou coelhos era "abominação" (Levítico 11:7-12), punível espiritualmente; hoje, é liberdade alimentar. Trabalhar no sábado merecia morte (Êxodo 31:14-15); agora, é direito trabalhista (CLT, folga semanal). Homossexualidade era pecado mortal (Levítico 20:13, morte por lapidação); hoje, é orientação protegida pela Constituição (artigo 5º, XLI) e STF (ADO 26/2011), com casamento igualitário.

        Esses exemplos revelam a Bíblia como produto de sua era: útil para coesão tribal, obsoleta para civilizações complexas.

A Mulher: Da Submissão à Igualdade Plena

        O tratamento à mulher na Bíblia exemplifica o patriarcado mais cruel, normalizado como ordem divina. Gênesis 3:16 condena Eva à submissão eterna: "Teu desejo será para teu marido, e ele te governará". Números 30:3-15 permite que pais ou maridos anulem votos femininos, tratando-as como incapazes. Em Êxodo 21:7-11, uma filha vendida como escrava concubina não ganha liberdade após seis anos. Levítico 12:2-5 impõe impureza ritual maior à mulher pós-parto de menina (14 dias vs. 7 de menino). Adultério era pecado só para mulheres (Deuteronômio 22:22), enquanto homens podiam ter múltiplas esposas (2 Samuel 5:13). No Novo Testamento, 1 Coríntios 14:34 manda mulheres "calar-se na igreja" e 1 Timóteo 2:12 proíbe-as ensinar ou autoridade sobre homens.

        Estupro? Deuteronômio 22:28-29 obriga a vítima a casar com o agressor, pagando 50 siclos ao pai — uma transação comercial. Viúvas e divorciadas eram economicamente dependentes, sem herança (Números 27 é exceção rara).

        Hoje, a revolução é radical. A Constituição de 1988 garante igualdade (artigo 5º, I), voto feminino desde 1932 (Lei 1.076, ampliado em 1934), e Lei Maria da Penha (11.340/2006) pune violência doméstica. Mulheres votam, elegem-se (Dilma Rousseff foi presidente), administram empresas (55% das microempresas no Brasil são femininas, Sebrae 2023) e dominam universidades (57% dos inscritos no Enem 2023, Inep). Globalmente, Angela Merkel, Jacinda Ardern e Christine Lagarde exemplificam liderança feminina. Essa evolução veio de sufragistas como Olympe de Gouges e Simone de Beauvoir, não de textos sagrados.
A Evolução da Sociedade e do Direito: Razão Sobre Revelação

        A sociedade progrediu de teocracias medievais para democracias laicas, guiada pela razão iluminista (Locke, Voltaire, Rousseau). A Magna Carta (1215) plantou sementes de direitos; revoluções Francesa (1789) e Americana (1776) sepultaram o divino direito dos reis. Darwin (1859) e Freud (séc. XX) desmistificaram o homem como centro divino, pavimentando o secularismo.

        No Brasil, a Constituição de 1988 — pós-ditadura — consagra dignidade (artigo 1º, III), pluralismo religioso e laicidade estatal. Direitos Humanos, via Pacto de San José da Costa Rica (ratificado em 1992), protegem minorias que a Bíblia oprimia. A ética evoluiu de "olho por olho" (Êxodo 21:24) para reabilitação penal (Lei de Execução Penal 7.210/1984).

        Essa trajetória mostra leis como construção humana, adaptável. O que era "normal" — escravidão, misoginia, sacrifícios — caiu porque a empatia coletiva cresceu. Países como a Noruega (índice de igualdade 0,84, Fórum Econômico Mundial 2023) exemplificam o auge: prisões restaurativas, paridade de gênero, proteção animal.

Conclusão: Superação do Passado Tribal

         Não existe pecado eterno; há normas transitórias. A Bíblia, relíquia poética de nômades, foi superada por constituições vivas, direitos humanos e ética societal. Absurdos como escravidão endossada, lapidações e subjugação feminina foram abolidos não por nova revelação, mas por consciência coletiva. Hoje, mentiras viram fake news reguladas (PL 2630/2020); discriminação, crime (Lei 7.716/1989). A humanidade evolui: de deuses vingativos a solidariedade racional. Honrar o passado não significa idolatrá-lo; criticá-lo impulsiona o futuro.



Em verdade vos digo (...)





O que eu chamava de absoluto

cedeu à dúvida

e a dúvida me ensinou mais que a certeza.


Os muros do preconceito,

erguidos por ignorância herdada,

ruíram quando encarei o outro sem medo.

Compreender é mais difícil que julgar.

Por isso, liberta.


Minha fé desceu do céu para o chão.

Saiu dos dogmas, entrou na experiência.

Hoje, creio no que toca, no que resiste ao teste do real,

no que se prova na vida

não no que se impõe pelo medo.


A política?

Prometeu salvação, entregou abandono.

Bandeiras não pagaram minhas contas,

discursos não seguraram minha mão.

Aprendi: partidos se alimentam de esperança alheia,

não de lealdade.


Resta-me o essencial:

pensar por conta própria,

errar com honestidade,

mudar sem pedir desculpas.


Não sou menos por duvidar.

Sou mais inteiro.


Em verdade vos digo

a lucidez dói,

mas a cegueira cobra mais caro.



30 de dezembro de 2025

O Engodo Eterno: Da Caverna de Platão aos Algoritmos da IA




        A humanidade, desde suas origens, tece uma teia de ilusões que a impede de enfrentar a realidade nua e crua. Perguntamo-nos: fomos enganados o tempo todo? Sim, e o engodo persiste porque nossa mente, moldada pela evolução para sobreviver em um mundo hostil, prefere narrativas reconfortantes a verdades incômodas. Deus inventado por tribos do Oriente Médio? Um Messias celestial? Políticos de esquerda ou direita como salvadores? Times de futebol, amores perfeitos, meritocracia capitalista ou socialismo utópico? Tudo isso são sofismas que alimentam paixões infames, distrações que mascaram o vazio existencial. Ignoramos que religiões são prisões mentais, ideologias políticas são ferramentas de controle, e até a IA, com suas imagens falsas e notícias fabricadas, nos arrasta para um labirinto de irrealidade. Onde chegamos? A um ponto em que nem distinguimos o real do simulado. E o futuro? Seremos servos dos deuses que criamos – algoritmos, corporações, messias digitais –, a menos que rompamos o ciclo.

        Para compreender esse domínio, traçamos uma linha cronológica dos engodos na evolução humana, mostrando como crenças e esperanças substituíram a razão bruta:

  • Pré-história (200.000 a.C. - 10.000 a.C.): Sobrevivência tribal gera animismo e xamanismo – espíritos na natureza explicam o incontrolável, unindo grupos contra o medo primal.
  • Antiguidade (3.000 a.C. - 500 d.C.): Religiões organizadas (suméria, egípcia, judaica) e filosofias como o mito da caverna de Platão revelam o sofisma: elites usam deuses para justificar impérios e escravidão.
  • Idade Média (500-1500): Cristianismo e Islã dominam; Igreja controla conhecimento, prometendo paraíso eterno para aplacar fome e peste – esperança como ópio das massas.
  • Iluminismo e Revoluções (século XVIII-XIX): Secularização critica dogmas religiosos, mas gera ideologias políticas (liberalismo, socialismo) – promessas de igualdade via Estado substituem deuses por messias humanos como Robespierre ou Marx.
  • Século XX: Capitalismo meritocrático e totalitarismos (nazismo, stalinismo) provam falhas; guerras mundiais e Holocausto expõem ilusões, mas consumismo e esportes viram novas religiões – paixão pelo time como identidade falsa.
  • Era Digital (2000-hoje): IA e redes sociais amplificam deepfakes, fake news e bolhas ideológicas; buscamos respostas simples (vacinas conspiratórias, criptomoedas salvadoras) para crises complexas como aquecimento global e desigualdade.

        Essa cronologia ilustra o padrão: cada era substitui um engodo por outro, sempre apelando à esperança para domar o caos. Por quê? Porque o cérebro humano evoluiu para narrativas – a seleção natural favorece quem crê em tribos unificadas por mitos, não o cético isolado. Religião prende pela culpa eterna; política, pela divisão tribal; capitalismo, pela ilusão do "self-made man" em um mundo de heranças; socialismo, pela utopia coletiva que ignora a ganância inerente. Hoje, a IA nos engana com perfeição: fotos irreais de felicidade, notícias polarizadas, conhecimentos sintetizados que soam verdadeiros. Chegamos ao ápice do sofisma – um mundo hiper-real onde a simulação suplanta o real, como previu Baudrillard.

        Qual o futuro da humanidade? Sem ruptura, servidão aos "deuses criados": bilionários de IA como Zuckerberg ou algoritmos que ditam eleições. A solução? Emancipação via ceticismo radical e estoicismo prático – não respostas simples, mas aceitação do absurdo camusiano. Eduque para o pensamento crítico desde a infância, desmonte instituições ideológicas, priorize ciência empírica sobre fé. O modo de emancipação é coletivo, mas individual: questione tudo, inclusive esta redação. Só assim escapamos da prisão mental que nos define há milênios.


22 de dezembro de 2025

Soneto do Calabouço Vivo



A beleza brota na contemplação,
no espanto puro, na surpresa da vida,
calabouço de dores que nos invade,
sentimentos em excessos, vazios na mão.

Prazeres que ardem, real que nos fere,
expõe a alma nua, sem véu ou ilusão,
fé, esperança e amor são a salvação,
antídotos vivos que o sofrimento esfare.

No breu do viver, achamos o divino,
luz que trespassa o caos confinado,
esperança tece a ponte ao infinito.

Amor cura o grito, fé ilumina o caminho,
no espanto da existência, tudo é sagrado,
beleza eterna no coração ferido.



3 de dezembro de 2025

Por fim, é isso!



 

Abraços apertados e frios,

Olhares penetrantes e maliciosos,

Palavras, promessas e falsas formalidades (...).

 

A corrupção e a má intenção

Se repousam sobre interesses escusos,

A ética e a moral perderam os seus valores

Por favores e utilidades.

Ninguém te ama!

Ninguém se importa com você.

As pessoas te usam pela conveniência

E pelas vantagens que elas podem extrair.

 

Homens usam mulheres para o sexo,

Mulheres usam os homens por outros interesses,

As empresas exploram pessoas,

Pessoas valem-se das empresas por dinheiro,

O Estado acabrunha a sociedade

E a sociedade busca no Estado seu escombro.

Deus recompensa o céu ameaçando com o inferno

E o ser humano barganha a própria vida pelo o medo.

 

Por fim, é isso!

 

 

 

 

 

1 de dezembro de 2025

O Manual Delicado do Intolerável.


    


    Há erros que escorregam da mão como vidro molhado: caem, machucam, fazem barulho; mas dá pra juntar os cacos, limpar o sangue e seguir. Há desculpas que, apesar de tardias, ainda carregam o cheiro morno da humanidade. Tudo isso é tolerável, revisável, perdoável.

    Mas há escolhas que não pedem desculpa: pedem distância.

    Caráter não falha por acidente. Traição não nasce por engano. Mentira não escapa espontânea como soluço. Essas decisões são cirúrgicas, frias, calculadas o suficiente para revelar aquilo que ninguém gosta de admitir: algumas pessoas nos mostram exatamente quem são; e a única resposta digna é caminhar para longe.

    A inveja e o ciúme são sombras inevitáveis. Não são bonitas, nem nobres, mas fazem parte do terreno acidentado da alma humana. Com conversa, com tempo, com vontade, se ajeitam. São tempestades que passam.

    Já a sacanagem, a quebra deliberada da confiança, o tapa nas costas disfarçado de abraço; isso não se conserta. Não há cola que grude o respeito depois dele ser cuspido no chão.

    A vida é curta demais para conviver com o que nos envenena. Tolerância não é covardia, mas insistir no intolerável é. E a lucidez cobra caro: às vezes o preço é aprender a fechar a porta com firmeza, mesmo quando o coração treme.

    No fim, é simples: o que não é recíproco, não é lar. E o que fere de propósito, não merece retorno.










4 de novembro de 2025

O Prazer do Proibido, ou o Submundo da personalidade humana.



Em sombras quietas brilha a tentação,
O que o certo manda evita o ser,
Mas o fruto escondido é sedução,
Que difícil é o homem deter.


Da ordem feita cresce a inquietude,
No não permitido nasce o desejo,
Que quebra a lei, a ética e a virtude,
E fere a confiança com seu ensejo.


Pois no proibido habita o anseio,
De sentir o risco, o fogo, a ardência,
Mesmo que ao fim reste só o vazio.


É prazer fugaz que traz receio,
Que destrói o laço e a consciência,
E cobra caro o custo do desafio.



27 de outubro de 2025

A Verdade Nua, ou o submundo da realidade.


 

Direi apenas e tão somente a verdade

Não pisarei em ovos com minhas palavras

A realidade não é flor de altar

Mas lámina fría sob a pele.

 

Compreenda que o mundo não te deve nada

Nem aplausos, nem favor e muito menos perdão.

 

A vida não é justa

É apenas real (nada mais que isso).

A realidade não se curva aos desejos

E não se compadece de sonhos mal vividos.

 

O fracasso não é falta de sorte

É o preço do conforto.

Tua dor não é castigo

É o eco das escolhas que fizeste

e fruto do acaso ainda não explicado.

 

Levanta-te, encare o espelho

O seu inimigo está diante de você,

O teu salvador também

A espada que corta é a mesma que liberta.

 

Os que encaram a dor sem fugir

Tem o privilégio de lutar pela vida. 




13 de outubro de 2025

O tripé das relações humanas




Ser humilde é tocar o infinito com os pés no chão.

É reconhecer que o brilho do outro não apaga o nosso; apenas ilumina mais o caminho.
A humildade é a arte dos gigantes de alma, daqueles que não precisam subir em ninguém para enxergar longe.

Ter gratidão é dançar com o tempo, é saber que nada é por acaso, que até a dor ensina, que até o tropeço tem um propósito.
É a memória do coração, o reconhecimento silencioso de que cada gesto recebido é uma semente plantada na eternidade.

E saber pedir perdão… ah, isso é ser nobre.
É desarmar o ego, despir-se do orgulho e confessar a própria humanidade.
É curvar-se diante do outro não por fraqueza, mas por grandeza.
Pois quem pede perdão não se humilha — se liberta.

Humildade, gratidão e perdão: três pilares invisíveis que sustentam tudo o que é verdadeiramente humano.
Sem eles, o amor vira vaidade, a convivência vira disputa, e a vida perde o sentido.


Mas quando esses três caminham juntos, até o caos encontra harmonia.
Porque o coração que é humilde, grato e capaz de perdoar…
esse sim, conhece a grandeza de existir em paz.




 

7 de outubro de 2025

Nostalgia lúdica do tempo



O tempo… ah, o tempo é um artista cruel e sublime.

Ele pinta com pincéis de vento as lembranças que deixamos escapar pelos dedos fotogramas de um passado que insiste em viver dentro da gente.
Há dias em que a memória chega mansa, com cheiro de café e risadas antigas,
e há outros em que ela rasga o peito como um trovão que não pede licença.

A vida, essa correnteza apressada, não espera ninguém.
Pisca-se, e a infância se despede no retrovisor.
Mais um suspiro, e a juventude se torna apenas um eco nas paredes do tempo.
Tudo passa… tudo.
E cada instante, mesmo o mais simples, é um universo inteiro que se apaga ao ser vivido.

As perdas… ah, as perdas ensinam na dor o que a felicidade não ousa tocar.
Elas deixam cicatrizes que o tempo não apaga, apenas transforma em constelações silenciosas.
Mas é nas saudades que mora o ouro da alma.
Porque sentir falta é a prova de que algo foi belo o bastante pra merecer eternidade.

No fim, somos feitos de pó, lembranças e música antiga.
De rostos que se foram, de amores que ficaram na beira da estrada,
de promessas que o vento levou, e de risadas que ainda ecoam,
como se o ontem estivesse logo ali,
esperando a gente voltar, só mais uma vez.



 

21 de agosto de 2025

O Espelho da Essência

 



    Se eu fosse exatamente aquilo que você imagina, um reflexo fiel de suas expectativas, uma cópia moldada ao desenho de seus desejos — ainda assim, ouso perguntar: você realmente me amaria?


    Amar não é reconhecer apenas o que se encaixa, mas também o que transborda, o que foge do molde, o que desafia sua própria ideia de perfeição.

    Se me conheceu como sou, inteiro e imperfeito, fruto de cada queda, cada escolha e cada silêncio que me trouxeram até aqui, por que exigir que eu me torne outro? Não seria uma traição ao próprio encontro, ao instante em que nossos caminhos se cruzaram?

    Cada ser é uma narrativa única, costurada por dores e encantos, escrita com erros e acertos. Apagar essa linha do tempo para agradar ao olhar do outro é renunciar à própria essência. E amar alguém só é possível quando se aceita não apenas o que encanta, mas também o que inquieta.

    Portanto, se um dia você disser que me ama, que seja pelo que sou — e não por uma versão que inventou de mim. Porque amor verdadeiro não pede mudança, apenas reconhece a beleza de existir exatamente assim.




19 de agosto de 2025

O oceano do saber




O saber é um rio sem margens,
quanto mais nele se navega,
mais se percebe o oceano aberto,
imenso, indomável, insondável.

A mente que se ergue em orgulho
afoga-se na própria vaidade,
mas a que se curva em silêncio
encontra no vazio a verdade.

Cada livro aberto é um espelho,
cada resposta, uma porta nova;
no instante em que se diz "eu sei",
a dúvida sussurra: "não basta".

Humildade é a coroa dos sábios,
pois quem muito aprende descobre
que a ignorância é infinita,
e o conhecimento, apenas lampejo.

Sábio é o que ajoelha diante do mistério,
não para rezar,
mas para ouvir.

12 de agosto de 2025

A Colisão Silenciosa de Mundos Internos




Não obstante, meus pensamentos se expandem diante dos sentidos – é como se cada ideia fosse uma explosão silenciosa, uma colisão de átomos de detalhes que se multiplicam até perderem o contorno. Eu não penso apenas: eu me afundo, me dissolvo, e retorno mais denso, mais afiado, mais perigoso.

A minha personalidade não é feita de certezas, mas de correntes que mudam de direção sem aviso. Não sou previsível, tampouco constante. Há em mim algo que fere e cura, que aproxima e afasta. Sou como um furacão que gira parado – inerte por fora, devastador por dentro.

Meus pensamentos não pedem permissão. Eles invadem, dominam e ocupam o espaço. Têm fome de entender o que não deve ser entendido, de tocar onde ninguém ousa tocar. Não são apenas reflexões; são armas afiadas, prontas para cortar a superfície das ilusões.

Carrego a estranha habilidade de ver camadas escondidas nas pessoas. O que para muitos é apenas gesto ou palavra, para mim é código, sinal, evidência. E uma vez visto, é impossível esquecer. É um fardo e um poder.

O meu caráter se molda na fricção entre o que sinto e o que escondo. Nunca me entrego por completo, pois sei que a verdade, crua e inteira, é insuportável para a maioria. Prefiro insinuar a revelar, deixar o outro sentir a vertigem de adivinhar quem realmente sou.

A minha mente é um labirinto com portas que não abrem pelo lado de fora. Quem tenta entrar descobre cedo demais que a saída não está no mesmo lugar da entrada. E poucos têm coragem de percorrer todos os corredores.

Há uma parte de mim que se mantém na penumbra, não por covardia, mas por estratégia. É lá que guardo a essência que não pode ser corrompida. Um núcleo de silêncio absoluto, imune ao barulho do mundo.

Meu pensamento é voraz, e minha personalidade é um enigma em movimento. Quem tenta me decifrar percebe que, mesmo quando pensa ter encontrado a resposta, a pergunta já mudou.

Eu sou o impacto que não se vê chegando, a palavra que rasga a calma, a presença que carrega tempestade mesmo em um dia sem vento.

E, no fim, o que sou não é para ser explicado e nem entendido.






11 de agosto de 2025

Anistia, ou Absolvam-me — Sou Culpado de Existir



Concedam-me anistia,
não pelo que fiz,
mas pelo que a vida fez de mim.

Anistia por cada imperícia
que derramou silêncio sobre gestos que deveriam falar,
por cada imprudência
que cortou caminhos antes de ver onde levavam,
por cada negligência
que deixou a flor secar antes de dar água.

Peço anistia pelos pecados
os confessáveis e os que nem eu ouso nomear,
pelos erros que escolhi
e pelos que nasceram sozinhos,
pelos crimes sutis do dolo eventual,
pelas culpas conscientes que carreguei como pedras na língua.

Anistia por não dobrar o joelho
diante das crenças alheias,
por não ajoelhar-me ao altar de certezas
que para mim sempre foram de areia.
Anistia por largar a fé
como se larga uma carta sem destinatário,
por rasgar promessas que nunca saíram do coração.

E, sobretudo,
anistia por ser eu,
este mosaico de erros e acertos
que não escolheu as peças que o compõem.
Se houver tribunal para a alma,
que ao menos me conceda
o benefício de existir
como fui moldado.



23 de julho de 2025

Se Deus Não Existir



Se Deus não existir e se o céu for silêncio,
o que somos senão poeira em movimento?
Sonhos seriam delírios do carbono,
pensamentos: faíscas do acaso insano.

O amor mero truque biológico,
dopamina vestida de mito poético,
carícia do instinto, pulsar químico e cego,
que o tempo devora no seu ciclo austero.

E a moral? Um pacto coletivo de sobrevivência,
um acordo entre feras civilizadas pela aparência.
Se não há Deus, o bem é convenção,
e o mal nasce na carne e não na perdição.

O mal brota onde há desejo sem freio,
onde o ego constrói seu império alheio.
Ele não vem do inferno nem do abismo arcano,
mas do olhar que calcula e mente com engano.

Se tudo começa e termina na matéria,
então o sentido é chama breve, efêmera.
Mas se mesmo no caos floresce a beleza,
há algo além da simples natureza.

Talvez sejamos deuses em carne disfarçada,
criados não por divindade, mas pela jornada.
E o sentido se é que há não vem de cima,
mas do que criamos com dor e disciplina.

Pois se não há Céu, que o céu seja o gesto,
de quem ama, de quem luta, de quem é honesto.
Se Deus não existir, que a vida seja arte:
mas com verdade em cada parte.

15 de julho de 2025

A lei da semeadura é mito


 

Plantamos amor, colhemos espinhos,
regamos o justo, cresce o espúrio.
Erguemos pontes com mãos limpas,
e eles com sangue constroem impérios.

Mentem, traem, riem no luxo,
caluniam em jantares requintados,
difamam com lábios dourados,
e o mundo... silencia e aplaude.

Dizem que tudo volta,
mas o retorno tarda ou nunca vem.
O vil prospera, o justo se cansa,
a colheita da alma vira desdém.

A tal “lei da semeadura”...
quem a escreveu não viu Babilônias.
Nem os altares erigidos com cadáveres,
nem as coroas feitas de mentira.

Então, o que vale?
Talvez e só talvez a consciência.
Não a paz dos justos, mas o sono dos íntegros,
o silêncio que não esmaga, mas liberta.

Viver com a alma limpa é revolução.
Ser bom em um mundo torpe é heresia.
Mas ainda assim, escolho a lucidez,
a honra que ninguém vê, mas arde
como fogo secreto, inextinguível.

Se não colho o que planto,
é porque o solo do mundo é podre.
Mas minha semente, ah...
ela é de ouro. E arde no tempo.

 

9 de julho de 2025

São o que São

As pessoas NÃO são o bem mais importante de uma empresa


As pessoas são o que são nuas de enfeite,
Sem os véus que pintamos em nossa ilusão.
Não há máscara que dure, nem alma que aceite
Ser moldada ao capricho da nossa projeção.

Criamos castelos com base em silhuetas,
Imaginamos virtudes onde só há razão,
E ao fim, tropeçamos nas mesmas canetas
Com que escrevemos contos sem chão.

O caráter não dança ao som do desejo,
Não muda por toque, carinho ou ardor.
É raiz silenciosa, sem disfarce ou ensejo,
É verdade que existe, com ou sem o amor.

A personalidade, tal qual impressão digital,
É marca que o tempo só acentua e revela.
Não se desfaz com beijos ou ideal moral,
Nem cabe na moldura da novela mais bela.

Aceita: ninguém é sonho, ninguém é mito.
Cada qual carrega luz, sombra e vício.
Faz-se sábio quem olha com olhar mais limpo,
E deixa de lado o delírio fictício.

Expectativa é a mãe do desgosto.
Fantasia, o pai do abismo emocional.
Se queres paz, encara o oposto:
Vê o outro como é humano e real.




2 de julho de 2025

Quando Amar Vira Obrigação: O Cansaço Invisível do Homem no Relacionamento.



Há um momento em que o homem se cala; não por orgulho, mas por exaustão.
Faz tempo que ele deixou de esperar aplausos, ele só queria ser visto.
Ele chama para sair, paga a conta, ouve com atenção, faz carinho, cuida das palavras, tenta entender até o que está nas entrelinhas. Mas tudo isso, que um dia foi expressão de amor, virou protocolo. Deixou de ser gesto e virou exigência.

Se ele não convida, está ausente.
Se convida, fez só o mínimo.
Se elogia, está manipulando.
Se não elogia, está distante.
Se trabalha demais, é ausente.
Se trabalha de menos, é preguiçoso.
Se é romântico, é carente.
Se não é, é frio.

Tudo é obrigação. Nada é expressão. Nada é ele.
E aí vem o ponto cego: o homem ama diferente.
Ele não escreve cartas como nos filmes, mas trabalha o dia inteiro e ainda lembra de passar no mercado porque viu que acabou o leite que ela gosta.
Ele não fala muito, mas memoriza cada detalhe do que ela diz para tentar agradar no próximo encontro.
Ele segura a barra no silêncio. Ama servindo. Ama agindo. Ama estando.

Mas quando tudo isso é engolido pela exigência cega do “é sua obrigação”, o homem se esvazia.
Ele sente que está sendo avaliado por uma régua invisível que sempre o mede como insuficiente.
E então acontece o inevitável: ele se retrai. Não por falta de amor, mas por falta de propósito.
Fazer ou não fazer dá no mesmo. Ser bom parceiro ou ausente não muda nada.

Quando o esforço de amar vira rotina imposta e não mais resposta natural de afeto, ele se afasta; primeiro em silêncio, depois em presença.
E quando você perceber, ele já não está mais ali, embora ainda esteja sentado ao seu lado.

Reconhecimento não é bajulação.

É combustível.
Homem que não se sente reconhecido não vira vilão.
Vira sombra.
Vira eco de si mesmo.

O amor masculino também precisa ser ouvido, lido nas entrelinhas dos gestos, e, acima de tudo, valorizado.

Caso contrário, o que era amor vira fardo. E o que era lar, vira labuta.
E ninguém aguenta morar no campo de batalha quando tudo o que queria era paz.



30 de junho de 2025

O Fim Sempre Chega



Chega sem aviso, como quem parte calado,
sem deixar bilhete, sem aceno no portão.
O fim não pede licença, entra gelado,
traz nas mãos o gosto amargo da negação.

É triste ver amores que já foram céu
transformarem-se em ruínas, em poeira de memória.
Amizades viram sombras num papel,
linhas borradas no diário de uma história.

Há quem vá por escolha, há quem vá por covardia,
há quem suma na curva da mentira.
Uns traem, outros apenas esfriam por dia,
até que o silêncio inteiro os retira.

O pior não é o fim, mas o abandono lento,
a ausência que cresce sem um som,
o amor que antes era firmamento
e hoje nem sequer responde o tom.

A despedida dói mais quando é incerta,
quando o último olhar não teve nome.
É duro ver a porta ainda aberta
e saber que quem partiu já não te consome.

Intimidades viram armas em mãos frias,
segredos compartilhados viram punhais.
A confiança, antes cheia de alegrias,
hoje jaz em sepulcros emocionais.

Mas o fim... o fim sempre vem,
em cartas não escritas, em jantares sem brinde,
em corpos presentes mas olhos que não veem,
no "pra sempre" que se torna um "ainda bem que finda".

Porque tudo tem tempo, tem ciclo, tem chão,
e quem já foi casa pode virar tempestade.
Aceita-se a dor, abraça-se a solidão,
pois até na perda mora alguma verdade.

Que venham os finais, com sua foice fina,
com seus cortes que ensinam e ferem.
Ainda que o amor morra em esquina,
os que ficam, vivem. Mesmo quando perecem.



25 de junho de 2025

ENCONTRO — A OBRA DO AMOR



Não creio em sorte, nem em destino,
Nem em almas gêmeas cruzando o caminho.
Acredito no toque, no gesto contínuo,
No querer sincero que vence o espinho.

Relacionar não é conto de fada,
É sangue, suor, alma rasgada.
É relar feridas, curar com carinho,
É crescer juntos no mesmo ninho.

Não é magia, é engenharia,
Não é poema, é carpintaria.
Dois corpos distintos, dois pensamentos,
Lapidando afetos em pequenos momentos.

Não é ter tudo em comum e igual,
É amar até o que faz mal.
É saber ouvir no meio do grito,
E calar na hora do conflito.

É saber que o outro não é espelho,
Mas universo inteiro sob outro conselho.
E mesmo assim, estender a mão,
Construir com tijolo e coração.

Não é metade da laranja escolhida,
É fruta inteira, rústica, sentida.
É dividir o sumo, o bagaço e o gosto,
É brindar o amor mesmo quando é desgosto.

É entender que amar é arte bruta,
Feita de erro, de falha, de luta.
Mas se há respeito e entendimento,
Dois viram templo, viram fundamento.

Relacionar é verbo que exige ação,
É plantar a paz na contradição.
É unir propósitos sem fusão de alma,
E aprender a dançar com a calma.

Porque amar, no fim, não é destino nem acaso,
É encontro sincero no meio do atraso.
É construir, tijolo por tijolo, a ponte e o lar,
E todos os dias… decidir ficar.



A poesia dos meus defeitos, ou Retratos da minha personalidade - Fragmentos do EU.



Carrego em mim um abismo calado,
Niilismo vestido de homem cansado.
Vejo o mundo sem véus nem mentiras,
Mas às vezes me afogo nas próprias retinas.

Sou castelo erguido na rocha da dor,
Orgulho de mármore, com rachaduras de amor.
Minha mente é uma lâmina afiada demais,
Que fere a mim mesmo em silêncios brutais.

Autossuficiente até demais para pedir socorro,
Prefiro morrer em pé do que viver de desafogo.
Meu controle é um cárcere de vidro e razão,
Um trono vazio dentro do meu coração.

Intelecto em chamas, ego mascarado,
Um sábio que às vezes fala calado.
Cobro do mundo aquilo que nem dou,
E sangro verdades que o tempo calou.

Sou intensidade que nunca relaxa,
E carrego no peito uma eterna ameaça:
De não saber ser leve, de não saber ser pouco,
De ser tempestade mesmo quando estou rouco.

Idealizo o amor como um livro sagrado,
E me frustro ao ver que o outro é falho e cansado.
Exijo perfeição do humano imperfeito,
E me afasto, soberbo, ferido no peito.

Rancores antigos moram nos meus ombros,
Memórias cortantes que não caem aos escombros.
E mesmo que o tempo queira me curar,
Revivo traições só para não me entregar.

Sou um general de batalhas internas,
Construo muralhas, destruo minhas pernas.
Mas no fundo, bem fundo, eu sei o que sou:
Um homem em guerra... que só quer um pouco de paz e amor.




Carta de Perdão aos que passaram pelo meu caminho



    A todos que, de alguma forma, cruzaram minha jornada e guardam feridas visíveis ou não causadas por mim, venho com sinceridade despir a alma diante do tempo.

Peço perdão.

    Perdão às pessoas que decepcionei com minhas escolhas, palavras ríspidas, silêncios mal explicados ou atitudes impensadas. Perdão aos que confiaram em mim e eu, por egoísmo, cansaço ou confusão, trai essa confiança. Perdão aos que foram bons, generosos, leais e não tiveram a devida reciprocidade. Aos que me estenderam a mão e eu não soube segurar. Aos que me ofertaram amor, tempo e cuidado, e eu não valorizei como deveria.

    Peço perdão às amizades que se tornaram ruínas, não por ódio, mas por desencontros e por minha incapacidade de sustentar vínculos quando minha alma gritava por mudança. Precisei me afastar para sobreviver, para reencontrar quem sou, mas isso não anula as feridas causadas por minha ausência.

    Peço perdão a cada mulher que passou pela minha vida e encontrou em mim algo que não pude sustentar. Não me orgulho dos desencontros, dos afetos interrompidos, das promessas não cumpridas. Se amei mal, se parti corações, se fui egoísta, perdoem-me.

    Peço perdão, também, àqueles que me feriram. Aos que mentiram, traíram, rejeitaram. Aos que partiram sem olhar para trás. Não peço desculpas por me machucar, mas por talvez não ter conseguido corresponder às expectativas, por não ter sido a pessoa que esperavam. Perdoar vocês é me libertar de mim mesmo. Não guardo mágoas, só lições.

    Mas, sobretudo, peço perdão a mim.

    Por todas as vezes que me abandonei tentando agradar. Por todas as vezes que fugi do espelho, com vergonha de quem me tornei. Por todas as vezes que cobrei demais e amei de menos quem eu era. Por ter cultivado culpas em vez de plantar consciência. Hoje, decido me amar. Decido me perdoar. Não para me eximir, mas para evoluir.

    Não escrevo esta carta para buscar pena. Não sou vítima, nem algoz. Escrevo porque preciso romper com os grilhões invisíveis do passado. Preciso respirar fundo e caminhar sem carregar o fardo das culpas, nem as desculpas que nunca recebi. Peço perdão porque quero ser livre. Porque só perdoando posso reconstruir por dentro e por fora.

    A quem quiser acolher esse pedido, que o faça em seu tempo, ou que apenas guarde em silêncio. Não espero absolvição. 


Espero cura.

 



Todos os textos são autoria de Giliardi Rodrigues. Proibida a reprodução de qualquer texto sem prévia autorização do autor.

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