Um dia me disseram que o mel era amargo,
que o rio não corria, só fingia o caminho (...)
sem saber, me entregaram um mapa bem largo
e eu aprendi a sair do meu próprio labirinho.
Me disseram que o fogo não aquecia ninguém,
que a estrela era falsa pintada no teto
e nessa mentira havia um presente também:
aprendi a buscar a luz no lugar mais discreto.
Às vezes a verdade vem disfarçada de erro,
um tropeço que abre a porta que eu não via
o que parecia muro era só vidro mero,
e o que chamavam de fim era só a saída.
Me disseram que o pão não sustentava a fome,
que a sombra era mentira que o sol inventou
e cada ilusão desfeita que eles me impõem
foi um gradeado a menos que o tempo quebrou.
Hoje sei que o engano pode ser libertador,
que cada véu rasgado é uma janela que nasce
quem me quis preso me deu, sem querer, a melhor
das ferramentas: a dúvida que tudo desfaz e refaz.
