9 de abril de 2026

Os Vinhos do Tempo, ou versos de um homem marcado pela história.

 


Caminho como quem já leu demais, 

como alguém que sabe que cada coisa tem suas camadas, 

suas contradições, suas verdades incômodas.


Capricórnio que constrói com as mãos e com a mente, 

que faz negócio e faço versos no mesmo dia, 

sem nenhuma vergonha de ser múltiplo, 

porque compreendi cedo que a vida não pede permissão para ser complicada.


Há solidão em mim, sim, mas não é aquela solidão fraca dos que temem pessoas. 

É a solidão do observador, 

de quem precisa de distância para enxergar bem as coisas. 

Escolho estar sozinho com um livro de história, 

ou um copo de whisky, ou uma partitura, 

porque sei que companhia verdadeira é rara 

e precisa de silêncio para respirar.


Busco mulheres que pensam, 

porque entendi que beleza sem inteligência é apenas decoração, 

e nunca fui de me contentar com adornos. 

Quero conversa, 

provocação, o brilho de alguém que consegue me surpreender.


A natureza para mim não é paisagem de Instagram. 

É arquivo vivo, 

é professora que não cobra presença, 

é o lugar onde as coisas fazem sentido sem precisar de explicação.


E os vinhos, os whiskeys que aprecio, 

não são vício nem status. 

São rituais de reflexão, 

pausas onde permito que o tempo desacelere o suficiente 

para perceber que estar aqui é privilégio.


Vejo o mundo como quem leu muito 

mas não perdeu a capacidade de se assombrar, 

como advogado que conhece as falhas do sistema 

mas segue acreditando em justiça, como músico que sabe que toda nota é temporária 

mas escolhe tocá-la com precisão.


Sou raro porque não pretendo ser nada que não sou, 

e em um mundo onde todos fingem ser mais leves, 

tenho a coragem de ser profundo.





7 de abril de 2026

Meia Luz




Ela chega carregando consigo um sigilo
que meus olhos reconhecem 
antes mesmo da pele revelar seus limites.

Existe um aroma que não vem de nenhum frasco, 
aquele que sai da curva do pescoço, 
do encontro entre o ombro e a clavícula, 
daquilo que ela mesma não sabe que exala 
e que me faz esquecer onde terminam meus pensamentos 
e começam meus instintos.

Minha pele grita por uma resposta que só a dela pode dar.

Quando ela se aproxima, 
entendo por que os antigos 
escreviam sobre deusa e perdição 
como se fossem a mesma coisa. 

Seus lábios guardam histórias 
que minha boca quer desvendar centímetro a centímetro, 
aquele sabor que não é doce nem amargo, 
mas tudo aquilo que existe entre o permitido e o proibido.

Suas mãos encontram meu peito 
como quem reconhece um lugar já visitado em sonho. 
E eu respiro fundo, me controlando, 
porque a paixão é uma fome 
que só ela sabe fazer crescer e ao mesmo tempo apaziguar.

Há um mistério na forma como ela me olha, 
naquele sorriso que promete tudo e nada, 
que acende coisas em mim que deveriam permanecer dormindo, 
mas que ela, com sua mera presença, insiste em despertar.

Quero devorar cada segredo que ela guarda, 
mas com a paciência de quem sabe que o melhor sabor 
é aquele que nos faz esperar um pouco mais.





6 de abril de 2026

O Avesso das Coisas


 



Um dia me disseram que o mel era amargo,

que o rio não corria, só fingia o caminho (...)

sem saber, me entregaram um mapa bem largo

e eu aprendi a sair do meu próprio labirinho.

 

Me disseram que o fogo não aquecia ninguém,

que a estrela era falsa pintada no teto

e nessa mentira havia um presente também:

aprendi a buscar a luz no lugar mais discreto.

 

Às vezes a verdade vem disfarçada de erro,

um tropeço que abre a porta que eu não via

o que parecia muro era só vidro mero,

e o que chamavam de fim era só a saída.

 

Me disseram que o pão não sustentava a fome,

que a sombra era mentira que o sol inventou

e cada ilusão desfeita que eles me impõem

foi um gradeado a menos que o tempo quebrou.

 

Hoje sei que o engano pode ser libertador,

que cada véu rasgado é uma janela que nasce

quem me quis preso me deu, sem querer, a melhor

das ferramentas: a dúvida que tudo desfaz e refaz.

 

 

A Vontade de Valor



O homem não é amado por aquilo que é

Nem por aquilo que constrói

Mas pelo o que conquista.

 

O homem não é amado pelo o peso que carrega sem recompensa

Mas pelo a solução que apresenta

Quando tudo desmorona.

 

O sofrimento do homem não é fraqueza - é forja.

O ferro se torna lamina no fogo e na fumaça.

O homem só se torna homem quando a dor o reforja.

Não busca validação.

É uma constante de valor que se constrói em silencio.

Ninguém vê, ninguém aplaude,

A vontade de valor e de poder é sua única morada.

 

Quais os valores de um verdadeiro homem?

 

A disciplina não imposta pelo o medo,

Mas o valor que nasce para além do desejo de ser.

A responsabilidade de carregar o próprio fardo,

Sem lançar culpa no mundo.

A coragem - não a ausência do tremor.

Mas saber caminhar as margens do abismo.

A integridade - resiliência de caminhar nas sombras e na luz.

Quando ninguém te julga e quando o mundo te inflama.

A criação - o poder de transformar e organizar o caos.

Sofrimento com propósitos e a dor como legado.

 

O homem que não faz nada pelo o nada será lembrado.

 

Mas por que a mulher moderna voa tão alto

E recusa o homem que tem tanto a oferecer?

 

A hipergamia é a natureza a se proteger.

Ela busca o topo porque sempre buscou

O mais forte, o mais alto, o mais fértil em vida.

Mas eis o paradoxo cruel da modernidade:

Ela exige o excepcional com uma alma dividida.

Aquela que muito exige e pouco entrega

Carrega a máscara do valor que não construiu.

Não é julgamento é espelho que reflete

O vazio que a cultura do mérito instituiu.

 

Portanto, ó homem, não te faças pequeno

Diante daquelas que não sabem te ver.

Teu valor não mora no olhar de nenhuma aprovação

Mora no que és capaz de tornar-te e fazer.

 

O homem comum que se recusa a ser medíocre

É o mais raro dos animais neste século vazio.

Carrega teu sofrimento como Sísifo carrega a pedra

Mas diferente de Sísifo, constrói no caminho frio.

Não és útil apenas és necessário.

Não és amado apenas és fundamento.

E quando o mundo te pedir mais uma vez que proves,

Responde com obra. Responde com talento.

 

"O que não me destrói me torna mais forte"

não como consolo, mas como método.

O homem que compreende seu valor profundo

Não precisa de aprovação. Precisa de propósito.

E o propósito, este sim, é teu e de mais ninguém.